1º Capítulo – A guerra na Antiguidade Chinesa

Para compreender o que quer que seja sobre a história da China, devemos sempre retomar o seu passado. Esta civilização tem uma história muito diferente da nossa: ela continua a existir e se desenvolver desde a antiguidade, preserva uma língua milenar, e suas tradições culturais tem uma durabilidade quase sem comparação.

Para termos uma idéia disso, imaginemos um exemplo: o império chinês, mais duradouro do que qualquer outro no mundo, só foi derrubado em 1911. Se aceitarmos a história tradicional chinesa como referência, que situa o início da soberania chinesa em torno do século 20 a.C., com a dinastia Xia, então, a derrubada do poder imperial chinês seria equivalente, por exemplo, a que o último faraó do Egito tivesse abdicado somente no início do século 20 também! Sem termos esta antiguidade em mente, torna-se impossível entender os modos pelos quais opera a mente chinesa.

Todavia, nossa história começa em torno do século 6 a.C. A China desta época era governada pela dinastia Zhou, que já estava no poder há quase seis séculos. No entanto, seu controle sobre o território era praticamente nominal, mas não efetivo; quando assumiram o poder, os Zhou haviam instaurado um regime político e econômico chamado Fengjian, muito similar ao que conhecemos como feudalismo, que dividiu o império em inúmeros reinos, condados, marquesados, ducados, etc. Os governantes destas províncias e reinos deveriam prestar obediência e vassalidade ao imperador Zhou, e em troca possuíam uma substancial autonomia administrativa. Ao longo dos séculos, porém, a dinastia Zhou foi perdendo o controle real do império, transformando-se em mero árbitro nas disputas internas, até que, gradualmente, o seu papel de interferir nos conflitos tornou-se praticamente nulo. As regiões adquiriram uma independência quase completa, e os senhores tomaram para si o poder de legislar e gerir seus próprios reinos.

Neste contexto, uma escalada de violência sem precedentes começou. A China de antes já havia visto guerras antes, mas nunca antes com esta intensidade. Todos os principais livros de história desta época – tais como o Tratado das Histórias e as Primaveras e Outonos – já falavam de batalhas, heróis guerreiros, mas em nenhum momento louvaram a guerra como um evento maravilhoso, e sim, como uma necessidade ou como decorrência de alguma grande crise. Em outro livro, o Tratado das Poesias, a guerra é lamentada em diversos poemas, e tida como uma calamidade social.

O que muda, então, a partir do século 6 a.C.? É que, finalmente, os grandes senhores percebem que não há mais nenhum comando efetivo por parte dos Zhou. A China estava sem um imperador de fato, e o “mandato do céu” – a teoria política que afirmava que o imperador era responsável pela ordem cósmica da natureza e das coisas – estava igualmente vago.

Foi neste momento que surgiram vários pensadores tentando buscar uma solução para este problema. O primeiro deles, Confúcio, foi um fervoroso defensor da educação como meio de remediar e prevenir as crises sociais. Este sábio foi também o primeiro historiador chinês, e grande parte das informações de que dispomos sobre esta época foi salva pelo seu extenso trabalho historiográfico.

Outra corrente de destaque foi a de Laozi, defensor de um desprendimento das coisas materiais e da sociedade, em busca de uma natureza original e distante do mundo mundano. Seus seguidores se denominaram caminhantes (daoístas ou, seguidores do caminho, o Dao ou Tao, numa grafia mais conhecida). Tivemos ainda os moístas, discípulos de um mestre chamado Mozi, que pregava a paz universal, o amor ao próximo e a defesa dos mais fracos, por meio da abolição da cultura de elite. Outra doutrina importante foi a e dos legistas, difundidas por Shang Yang e Hanfeizi, cuja pregação voltava-se para uma remodelação do império, por meio de leis duras e centralizadoras, com a supressão dos privilégios feudais e um controle total sobre a sociedade.

Todas estas escolas advogavam um Dao – um caminho, ou método – para solucionar a crise que se avizinhava. Contudo, outro grupo de autores, conhecidos como estrategistas, dedicou-se a estudar a arte da guerra e preparar-se para a sua eventualidade. Seu entendimento é que a guerra, como algo evidente e prestes a acontecer, deveria ser estudada em seus pormenores, e seu vencedor ditaria as regras no futuro.

Foi assim que surgiram autores famosos, como Sunzi e Sunbin, e outros menos conhecidos – porém importantíssimos – como Sima, Wuzi e Wei Liao, que analisaram a guerra em detalhes, e propuseram métodos e estratégias que possibilitassem vencer e encerrar os conflitos da maneira mais rápida e adequada possível.

As premissas sobre as quais estes autores trabalhavam eram diferentes daquelas das outras escolas. Eles não estavam preocupados em consertar o mundo, mas em fornecer os meios para que isso fosse feito. Sua idéia central era dar o poder ao mais capacitado, e assim, este poderia promover novamente a ordem. Alguns historiadores chineses modernos consideram que eles chegaram a formar uma espécie de escola que englobava conceitos diversos do confucionismo, do daoísmo e principalmente do legismo. Isso, no entanto, é menos importante do que sua obra em si, que analisaremos nos capítulos a seguir.

A questão é que a mudança do perfil político da China, neste século 6 a.C., detonou uma grave crise, que descambou naturalmente para a guerra civil. Este conflito não seria, porém, como os outros.

As guerras de antes desta época eram bem diferentes. Os exércitos não eram muito grandes, e as batalhas estavam longe de serem mortíferas. Em geral, os exércitos ficavam dias acampados um em frente ao outro; os adivinhos consultavam os oráculos para saberem os dias mais propícios ao combate, e grande parte da tropa era composta por camponeses que tinham pouca idéia do que faziam ali. Estes soldados armavam-se com lanças e facas, e algumas vezes dispunham de escudo e uma couraça de couro. Seu papel era quase decorativo: eles serviam mais para proteger seus senhores de qualquer interferência durante um combate singular com outro cavalheiro do que propriamente lutar. Era comum que vencessem uma refrega apenas por meio de correria, gritos e algazarras. Afinal, estes camponeses não tinham nada a ganhar com aquelas batalhas, senão a vida. Seu interesse por guerras era praticamente nulo, e sua vontade de brigar dependia, em muito, da capacidade motivadora de seu comandante.

Estas batalhas antigas eram espaço, de fato, para os fidalgos. Desfilando em seus carros bem armados, com armaduras de couro de búfalo ou de tubarão, elmos decorados e armas cintilantes, suas disputas particulares transformavam-se em espetáculo. Combatiam com armas diversas, incluindo espadas e o arco e flecha, arma restrita a eles. Antes dos ataques principais, estes homens em busca de heroísmo digladiavam-se, em justas muito semelhantes as que encontramos nas narrativas da guerra de Tróia de Homero. Um outro fragmento das Primaveras e Outonos nos dá uma idéia disso: em meio a um combate, dois nobres, de cima de suas bigas, trocavam flechas um contra o outro até que o carro de um deles atolou. O outro parou, e aguardou até que os serviçais desatolassem a biga, para dar continuidade à luta. Com efeito, acreditava-se que a guerra era uma extensão das capacidades morais e intelectuais dos nobres, e que os duelos apresentavam-se como reproduções – não por meio de palavras, mas pelas armas – destas virtudes. O vencedor era considerado, pois, o melhor dos homens.

O resultado destas batalhas, não raramente, consumava-se em um acordo qualquer que seria desrespeitado alguns anos depois. Os ganhos reais destas lutas eram raros, e enquanto a intercessão de Zhou funcionou, as guerras foram pouco efetivas em alcançar seus objetivos fundamentais.

Isso começou a mudar quando a guerra tornou-se uma profissão, e um meio eficaz de conquistar resultados políticos e territoriais. A partir de 481 a.C., a guerra civil se instaura de modo declarado, dando início ao período conhecido como Estados Combatentes; não havia mais espaço para cavalheirismos, e os combates tornaram-se especializados, truculentos e mortais. Só restaram sete reinos para disputar o trono vago de Zhou: Qi, Qin, Chu, Zhao, Han, Yen e Wei; todos os outros foram engolidos ou apagados como instituições políticas.

Isso implicou numa mudança direta das técnicas e estratégias militares. Os exércitos começaram a ser organizados de maneira rígida e profissional, e foi oferecido aos camponeses um meio de ascensão social servindo nas forças armadas. As recompensas e a promessa de ganhos materiais atraíram milhares de jovens para a carreira das armas, e deram um sentido novo para a guerra. Temas como a “defesa da terra natal” começaram a ser invocados, ajudando no estímulo da luta; os soldados tornaram-se personagens ativos e decisivos nas batalhas, esmagando o ideal nobre de antes.

Um dos elementos que torna isso evidente é a distribuição de arcos para batalhões inteiros. A arma, antes de uso exclusivo dos nobres, e ocasionalmente encontrado em versões menores na mão de caçadores, foi empregada como um meio de ataque maciço. Agora, despejavam-se milhares de flechas contra cavalheiros surpresos, que repudiavam inutilmente tais posturas. As bigas, elegantes, transformaram-se em plataformas de massacre generalizado, distribuindo golpes em todas as direções, e tripuladas por soldados loucos por recompensas. O Estado de Qin introduziu a cavalaria das estepes, em que cada soldado e sua montaria formavam um par mortal, rápido e eficaz contra as formações de infantaria.

O resultado aparece nas crônicas posteriores, seja as Crônicas dos Reinos Combatentes (Zhanguoce), ou as Recordações Históricas (Shiji) de Sima Qian (séculos 2 -1 a.C.): as batalhas começam a contar milhares de mortos, as cifras tornam-se assustadoras. O maquinário militar igualmente se aperfeiçoou: lemos sobre armas de cerco, sobre táticas de batalha, catapultas, ataques com fogo, etc. e seu uso em formações de batalha. O ferro substitui, em definitivo, o bronze: lanças são usadas para combate direto (numa versão menor) ou para formar barreiras contra os batalhões inimigos (noutra versão de quase 5 metros de cumprimento), e suas pontas são em formato de arpão (tanto para estocar quanto para cortar). É a besta, porém, que se destaca neste panorama: dona de uma precisão e força incomparáveis na época, ela se torna a arma que destrói a nobreza. Surgida de uma adaptação do arco, em torno do século 4 a.C., a besta era uma arma simples, que não exigia muito treino e possuía uma força estupenda. Seu uso irritava profundamente os cavalheiros, que haviam treinado anos com suas espadas e escudos para serem derrotados, a distância, por ex-peões ávidos em humilhá-los. Seu uso obrigou uma modificação nas armaduras, que passaram a ser feitas, obrigatoriamente, de tiras de metal, dada a ineficiência das armaduras anteriores frente às setas das bestas. Na verdade, um estudo atual sobre esta arma mostra que ela era capaz de furar qualquer escudo existente em sua época – não só os chineses, mas mesmo os escudos de metal ocidentais...

Para se manter exércitos gigantescos como os que estavam surgindo, era necessária uma disciplina férrea. Treinos constantes, punições duras e uma ordem de batalha concebida para maximizar a ação dos soldados exigiam uma ordem bem estabelecida, simples e clara. Wuzi, um dos estrategistas que estudaremos aqui, exemplifica esta condição numa de suas historietas: um guerreiro impetuoso e hábil, no afã de demonstrar suas habilidades, saiu correndo a cavalo contra as fileiras inimigas, matou alguns soldados e voltou. Wuzi mandou prendê-lo e executá-lo. Quando os oficiais intervieram a favor do jovem, Wuzi lhes respondeu: “ele é hábil, mas desobediente. Deu um péssimo exemplo”. E ordenou a decapitação.

O tempo dos Estados Combatentes foi um período de artimanhas, violência e inteligência. Os sábios andavam de reino em reino oferecendo seus conselhos, mas ao final, no século 3 a.C., foi o reino de Qin que reunificou a China, criando uma nova instituição sob a égide da dinastia Qin. Para conseguir este feito, os Qin empregaram os métodos de duas escolas, o legismo e os escritos dos estrategistas. Doravante, a guerra nunca mais seria feita de modo ingênuo ou cavalheiresco, e as narrativas de combates heróicos posteriores ocorreriam em meio a batalhas mortíferas envolvendo milhares de soldados, cujos objetivos eram práticos e realísticos.

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