10º capítulo – Maozedong e a sagração de Sunzi

“A política é uma guerra sem derramamento de sangue, e a guerra uma política com derramamento de sangue”. Maozedong

No século 18, um religioso francês, o padre Amiot, traduziu a Lei da Guerra de Sunzi para o francês, e dizem – “dizem” – que Napoleão foi um de seus leitores mais ávidos – razão pela qual, supostamente, em seu cárcere em Santa Helena, ele teria afirmado: “quando a China se levantar, o mundo tremerá”. Quando os japoneses atacaram Pearl Harbor em 1942, a estratégia empregada foi exatamente a descrita no capítulo 11 do livro de Sunzi; contudo, os mesmos japoneses, que até então vinham estudando com constância o livro, parecem ter esquecido de ler o resto, e conduziram o restante da guerra de modo desastroso. Chiang Kaishek, líder das forças republicanas chinesas durante o período do final da década de 20 até 1949, e que gostava de ser chamado de “generalíssimo”, gabava-se de ser um leitor assíduo de Sunzi, apesar de ter levado uma sova atrás de outra. Porém Maozedong, o chefe da guerrilha comunista, e depois, o primeiro presidente comunista do país mais populoso do mundo, esse sim era, de fato, um estudioso e conhecedor da obra de Sunzi.

Que fique bem claro, não temos pretensão alguma de fazer deste livro um panfleto comunista ou pró-Mao; na verdade, como todo e qualquer bom estrategista, Maozedong (ou Mao Tsé-tung, numa grafia mais conhecida) foi também uma figura controversa, complexa, e cujo julgamento histórico ainda está por ser feito. Líder libertador ou tirano maquiavélico, este não é o centro da discussão: a questão é que Maozedong foi um estrategista de mão cheia, um conhecedor de Sunzi como há muito não se via, e que expressou isso por meio de suas conquistas.

E quais foram? Maozedong conseguiu resistir às forças republicanas chinesas, que eram o triplo das suas, durante o primeiro período de guerrilha; depois, contribuiu decisivamente para a vitória sobre os japoneses na segunda guerra; após 1945, voltou a enfrentar seu inimigo Chiang Kaishek, cujo exército continuava a ser imensamente superior ao seu, e o venceu, instaurando o comunismo no país em 1949; pouco depois, estava na guerra da Coréia, se batendo contra os americanos e conseguindo o primeiro empate do Oriente contra o Ocidente; derrotou as tropas indianas numa disputa de fronteiras em 1962; por fim, ajudou a treinar, orientar e auxiliar as tropas vietnamitas contra os franceses, e depois, contra os americanos, que resultaram na famosa vitória da guerra do Vietnã.

Analisando este breve currículo, é impossível não considerar Mao como um estudioso extremamente competente da arte estratégica chinesa. Não importa quais forem as críticas a sua pessoa, não se pode negar que, no aspecto militar, ele foi relativamente bem sucedido.

Mas como se deu a trajetória do “Maozedong general”? Desde o início de sua carreira política, Mao não parecia ser do tipo que tivesse pretensões guerreiras ou militaristas. Ele participou do movimento de Sun Yatsen para derrubar o império Qing, e instaurar a república no país. Vindo de uma família pequeno-burguesa do interior, sua educação alternou entre o tradicionalismo chinês e os estudos das teorias modernas européias, notadamente no marxismo. Isso não era um problema para Sun Yatsen, cujas orientações ideológicas se alternavam numa mistura de democracia republicanista americana, um socialismo brando e um confucionismo modernista. Na verdade, Sun Yatsen era um homem charmoso, inteligente, agregador, capaz de instar as pessoas ao seu redor ao embarcar em suas causas. Como administrador, porém, era um incompetente consumado, um verdadeiro “banana”. Logo após derrubar os Qing, Sun não conseguiu manter-se no poder, tendo que ceder aos caprichos da elite chinesa da época. Quem acabou assumindo o governo em seu lugar foi Yuan Shikai, um general latifundiário que tinha pretensões de restaurar a monarquia e ser um novo imperador. Yuan, porém, morreu logo, em 1916, e no vácuo de seu curto período de exceção Sun voltou ao topo. Contudo, como era um consumado idealista incompetente, não conseguiu fazer nada de muito bom, e a melhor coisa para sua carreira foi morrer em 1925, virando um herói nacional incontestável. É uma virtude para os grandes nomes da história não durarem muito, antes que possam fazer besteiras.

Quem assumiu o poder foi seu discípulo Chiang Kaishek (ou, Jiang Jieshi), que em breve botou as mangas para fora e tornou-se ditador. Chiang teve uma carreira curiosa: foi um dos seguidores mais próximos de Sun, chegando a casar com sua filha; participou de uma missão militar na União Soviética, a mando de Sun, para estudar técnicas modernas de guerra e comprar armas, e voltou para a China se dizendo comunista (tendo mesmo ajudado na formação do partido comunista chinês). No entanto, ao assumir, o poder, realizou uma virada violenta no jogo político: primeiramente, começou uma caçada implacável aos vermelhos, culminando com o terrível massacre do partido comunista, em 1927, promovido enquanto este estava em sua assembléia em Shanghai. No seguir, tentou criar uma nova linha política que negociava levianamente com Moscou, com os Estados Unidos e com a ascendente Europa nazi-fascista. É possível que Chiang esperasse tirar o melhor partido de cada lado, mas por conta disso ele cometeu erros grosseiros de estratégia e visão política. Convocou missões militares alemães para treinar o exército chinês (quando a Alemanha já começava a se alinhar com o Japão na década de 30); delegou poderes a membros do extinto império chinês para supostamente administrar melhor o país (lançando-o numa escalada de corrupção sem precedentes); mas seu pior erro, porém, foi não ter eliminado todos os comunistas no massacre de Shanghai, deixando escapar o jovem Maozedong. Dali por diante, Chiang teria um inimigo que nunca conseguiria superar em toda sua vida.

É possível que Mao ainda tivesse ilusões, até 1927, de que a China poderia conhecer o socialismo sem uma revolução sanguinolenta, mas sua crença foi por água abaixo com a ascensão de Chiang. Mao teve que se lançar à luta armada, e daí sua carreira de estrategista começou.

Mao não estava sozinho, mas contava com a ajuda competentíssima de dois de seus grandes companheiros de luta e vida: Zhude e Zhu Enlai. Ambos eram também excelentes soldados, leais e dedicados comunista. Acompanharam Mao em todas as suas dificuldades e vitórias, e em 1976, quando tanto Zhude e Zhu Enlai morreram, Mao não resistiu e os acompanhou, privando a China, de uma só vez, de seus líderes mais decisivos no século 20.

No entanto, o jovem Maozedong não entendia patavinas de estratégia, e se viu obrigado a recorrer aos seus conhecimentos de literatura clássica chinesa para suprir o problema. Foi este, provavelmente, o momento de reencontro entre ele e a obra de Sunzi. Apesar disso, da sua parte, havia a clara consciência de que aqueles conhecimentos precisavam ser adaptados ao contexto moderno, sem o que, ele repetiria o mesmo erro das gerações anteriores. Suas crenças foram reforçadas quando ele foi obrigado a fugir, com suas forças, para o interior da China, no episódio conhecido como a Longa Marcha (1934-35). Os comunistas tomaram uma surra das tropas de Chiang, infinitamente superiores em número e equipamento. Ainda assim, Mao conseguiu escapar para o norte, se reagrupar, e formar um núcleo poderoso de preparação para suas tropas, antevendo um novo período de combates.

Mais uma vez, Mao estava correto em suas projeções. Chiang estava muito confiante em suas forças e seus sucessos. Após a morte de Sun, ele comandou a repressão aos senhores da guerra – latifundiários que mantinham exércitos particulares no campo – e foi bem sucedido. Perseguir o incipiente exército comunista também lhe pareceu tarefa fácil, e a relativa facilidade com que alcançou seus objetivos (era, ao menos, o que ele pensava) lhe deu a impressão particular de ser um grande estrategista e militar invencível. Chiang divulgou a fama de ser um leitor de Sunzi, e permitiu que o chamassem de generalíssimo, título de um “sempre vencedor”. No entanto, havia algo que ele tinha que resolver, e que estava engasgado na garganta dos chineses: a ocupação japonesa.

Cedo ou tarde, ele havia previsto – assim como Mao – de que a China teria que acertar contas contra a presença japonesa em seu território, e a oportunidade veio em 1936, no verdadeiro início da segunda guerra mundial. Um incidente banal deu ensejo para que os japoneses invadissem o país, objetivando ocupar territórios ricos em matérias-primas. Chiang havia concebido uma estratégia que julgava brilhante: enquanto os japoneses atacassem no norte, ele atacaria forças japonesas aquarteladas no sul, desviando sua atenção. Contudo, Chiang não observou alguns elementos fundamentais da estratégia, já discutidos em Sunzi, que eram:

1) A preparação de suas forças: se os soldados treinados pelos alemães eram competentes, o mesmo não se pode dizer de seus generais. Chiang tinha por hábito designar como oficiais homens de sua confiança ou membros da elite chinesa, que gostavam do prestígio dos uniformes, mas não da profissão. Ficou famoso o episódio da academia da força área, organizada pelos italianos, que fornecia brevês de aviadores a filhos de ricaços sem que esses soubessem pilotar! Além disso, os italianos empurraram aviões obsoletos para os chineses, que o governo corrupto de Chiang comprou sem preocupar-se com o depois. Sem oficiais capazes, um exército não pode funcionar.

2) Uma linha de ação definida: quando Chiang começou a flertar com comunistas e nazistas, não concebeu que isso poderia se voltar contra ele. O que aconteceu foi que, logo no início dos combates, é provável que os alemães tenham entregado as posições e planos chineses aos japoneses, com os quais já encetavam uma aliança.

3) Não sitiar: Sunzi foi bem claro: sitiar uma cidade é a pior coisa a se fazer. É demorado, consome recursos e expõe as tropas ao perigo.

Chiang cometeu estes três erros, e rapidamente suas tropas foram destroçadas pelos japoneses. Em 37, ele deixou no comando da cidade de Nanjing (Nanquim) um velho senhor da guerra que, ao ver os japoneses se aproximarem, consultou seu médium particular e resolveu dar no pé, deixando a cidade a mercê do invasor e ocasionando o terrível episódio do Massacre de Nanquim, o primeiro holocausto da segunda guerra mundial.

Enquanto isso, o obstinado Mao estudava, e aguardava o momento certo para agir. Os comunistas educavam seus soldados não só nas artes militares, mas os ensinavam a ler e a escrever. Como Mao afirmou, “uma revolução não é um convite para jantar”, e suas forças aprumavam-se para entrar em ação. Além disso, enquanto as tropas republicanas eram corruptas, violentas, e passavam saqueando os campos em busca de comida e mulheres, os guerrilheiros comunistas tornaram-se lendários pelos seus princípios humanitários, ajudando os camponeses na terra, pagando pela comida e defendendo-os contra a bandidagem.

Foi a Mao que Chiang recorreu quando viu que não poderia enfrentar os japoneses diretamente. Propondo uma aliança contra o inimigo comum, ambos lançaram uma campanha para a expulsão do invasor – apesar de Mao nunca ter se enganado com Chiang. Em certa feita, ele teria afirmado que sua aliança com Chiang são como “os casais que dormem na mesma cama, mas sonham sonhos diferentes”.

Perto do fim da segunda guerra, tantos os soviéticos quanto os americanos já sabiam que Mao tinha muito mais chances de vencer a futura guerra civil chinesa do que os republicanos. A obsessão de Chiang em vencer Mao cegava-lhe qualquer tentativa de negociação, e atrapalhou mesmo a campanha contra os japoneses. O que se viu de 1945 a 1949 foi o desenrolar de uma história singular: o exército comunista era a metade – ou menos, ainda - do republicano, mas sua determinação, estratégia e organização o fizeram vencer. Chiang fugiu para Taiwan, onde fundou sua nova república chinesa e por lá ficou, até 1975, protegido pela frota e pelas bombas atômicas americanas.

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Mao recorreu a Sunzi para ganhar suas guerras, e tinha um certo orgulho de ter se convertido de rato de biblioteca em um valoroso soldado. Sua produção na área de estratégia aparece nos livros

Sobre a Táctica na Luta Contra o Imperialismo Japonês (1935)

Problemas Estratégicos da Guerra Revolucionária na China (1936)

Linha Política, Medidas e Perspectivas na Luta Contra a Ofensiva Japonesa (1937)

Lutar pela Mobilização de Todas as Forças para a Vitória da Guerra de Resistência (1937)

Problemas Estratégicos da Guerra de Guerrilhas Contra o Japão (1938)

Sobre a Guerra Prolongada (1938)

Problemas da Guerra e da Estratégia (1938)

Problemas Tácticos Atuais na Frente Única Anti-Japonesa (1940)

Não raro, ele cita Sunzi, ou as estratégias da Lei da Guerra em seus trabalhos, dando-lhes um lustre clássico. Contudo, a virtude de seu trabalho está em ter adaptado para as condições da guerra moderna as noções antigas de estratégia presentes no trabalho de Sun. No livro principal de Mao, o Livro vermelho (no qual se encontra uma coletânea de citações que são consideradas o cerne de sua obra) uma parte é inteiramente dedicada às questões da guerra e da teoria estratégica. Como o próprio Mao afirmou: Somos a favor da abolição da guerra, não queremos a guerra. Mas a guerra só pode ser abolida com a guerra. Para que não existam mais fuzis, é preciso empunhar o fuzil”

O teste definitivo para as estratégias de Mao vieram na guerra da Coréia e na libertação do Vietnã. Enfrentar o exército despreparado de Chiang era uma coisa, mas combater os experientes americanos, recém saídos da segunda guerra, era outra completamente diferente. Mao usou de artimanhas diversas na Coréia, fazendo com que sua intervenção forçasse os americanos a retrocederem. Embora o conflito tenha dado empate – com a morte de um dos filhos de Mao no campo de batalha – o resultado foi considerado um sucesso, tendo em vista que a China acabara de sair de um conflito devastador, e suas bases econômicas ainda estavam combalidas.

No Vietnã, o general Giap, usando as estratégias maoístas, conseguiu encurralar os franceses em 1954 na batalha de Dien Bienpu, vencendo-os de modo definitivo. O estratagema fundamental desta batalha foi o uso do terreno: Giap aguardou a oportunidade de enfrentar os franceses numa batalha definitiva, usando a topogafia a seu favor. Forçou-os a combater num planalto que eles acreditavam ser ideal para um conflito aberto, e cuja cadeia de montanhas mais próxima parecia ser inacessível. No entanto, Giap já havia instalado a artilharia no topo destas montanhas, peça por peça, numa dessas estratégias chamadas “incomuns” (ou, “não ortodoxas”) por Sunzi. Os franceses sofreram por dias, sem poder reagir ao fogo de artilharia, e finalmente se renderam.

Mao, o grande artífice dessas vitórias, acabou legando seus pensamentos sobre estratégia na sua coleção de escritos, que hoje podem ser facilmente consultados. No entanto, ao resgatar Sunzi, ele deu uma nova abertura para o passado chinês, consolidando-o como uma peça fundamental da cultura desta civilização. Mao não gostava do confucionismo ou do daoísmo, mas apreciava sobremaneira o pensamento legista e estrategista. Para sua felicidade absoluta, os textos de Sunzi e Sunbin foram descobertos depois, em 1972, durante seu governo. O grande timoneiro provavelmente se sentiu realizado.

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