2º Capítulo – Antes de Sunzi: Taigong e Sima Fa

Pode parecer surpreendente, mas estudos recentes mostram que, apesar de Sunzi ser o mais famoso dos estrategistas chineses, graças a sua Lei da Guerra (Sunzi Bingfa), ele pode ter tido seus antecessores. Estes autores – tão misteriosos quanto o próprio Sunzi – legaram obras menos conhecidas, porém não menos importantes, para a história da estratégia chinesa.

Voltemos, então, ao fatídico século 6 a.C., quando inicia-se a terrível crise chinesa. Os intelectuais começam a perambular pelos reinos, formando grupos de conselheiros nas cortes, apresentando suas visões sobre o mundo, e propondo possíveis soluções para a crise. Wei, um dos países mais bem preparados para enfrentar este período, havia se armado, formando um exército vasto e capacitado. Apesar de possuir fronteiras com vários Estados rivais, suas primeiras campanhas militares foram extremamente bem sucedidas, e Wei pareceu, durante algum tempo, estar na dianteira da empreitada de conquistar o restante da China. Ora, quem eram os estrategistas que auxiliavam o rei de Wei nesta empreitada? Apesar de não conhecermos seus nomes, existem evidências de que eles poderiam estar lendo duas obras de estratégia que seriam, supostamente, as mais antigas da China: Os seis ensinamentos secretos de Taigong e a Lei de Sima.

O primeiro, Os seis ensinamentos secretos de Taigong, teria sido escrito por um oficial chamado Taigong, que auxiliou a derrota da dinastia Shang pelos Zhou em torno dos séculos 12-11 a.C. Tai auxiliou, ainda, na formação do reino de Qi, propiciando-lhe meios para assegurar sua soberania por meio da força e de um governo modelar.

Ora, se esta informação fosse realmente verdadeira, Taigong obteria a primazia indiscutível da escola estratégica na China antiga, mas devemos ter um grande cuidado com isso. Não temos nenhuma outra informação sobre Taigong, senão aquela que o seu próprio texto nos dá e numa sucinta biografia no onipresente Registros Históricos de Sima Qian. Seus escritos são citados na dinastia Han (séculos 3 a.C. – 3 d.C.), mas nada de conclusivo é dito sobre sua figura. A autenticidade do livro foi posta em dúvida até 1972, quando a descoberta de uma tumba, na China, revelou algumas obras de estratégia preservadas desde a mesma época Han – e nelas se incluía não só os Os seis ensinamentos secretos de Taigong como também a Lei da Guerra de Sunbin, da qual falaremos mais adiante. O que os cronistas de Han nos dizem, pois, é que países como Wei liam o livro de Tai – mas nisso, não havia novidade alguma, posto que todos os outros estados deviam fazer o mesmo. A vantagem de Wei, neste caso, teria sido a de aplicar alguns desses ensinamentos, de maneira efetiva, na organização de seu exército e do governo. Mesmo Confúcio, quando andava de reino em reino, foi ter uma entrevista com o rei de Wei, e a primeira pergunta que este lhe fez foi: “você poderia treinar nossos exércitos?”, ao que o mestre respondeu: “entendo de ritos e letras, não de armas”. No dia seguinte, Confúcio foi embora. Não era isso que Wei procurava – provavelmente, eles não queriam repetir o “sábio erro” do duque de Song...

Mas é difícil afirmar que o livro de Tai seja realmente o primeiro, e nada confirma esta hipótese. É possível, na verdade, que o livro tenha sido escrito em torno do século 4 a.C., assim como o de Sunzi, mas seu autor o atribuiu à um personagem histórico antigo para dar-lhe autoridade e primazia.

E o que diz o livro da Taigong? Ele delineia as regras gerais pelas quais se constrói a idéia da estratégia como um método para obter eficácia – seja em combate, seja mesmo no governo. Seu livro divide-se, basicamente, em duas partes fundamentais: os ensinamentos para o governo civil e os ensinamentos para alcançar a vitória em guerra. Na questão dos ensinamentos sobre o governo, Tai cita conceitos que aparecerão, igualmente, na obra de Sunzi – no entanto, o que em Sunzi é uma questão relativa ao governante, enquanto sua preocupação central é a vitória, em Taigong torna-se um longo discurso sobre os meios apropriados de se governar. Neste caso, a obra de Tai aproxima-se das propostas de outros pensadores da época dos Estados Combatentes, como Confúcio, Mêncio, Laozi, Mozi, Hanfeizi, etc., o que cria um anacronismo histórico importante para nossa análise: afinal, como Tai poderia estar discutindo coisas que ainda não existiam no século 11 a.C.?

Quando lemos os Seis ensinamentos, percebemos que a primeira parte do texto é toda dedicada a arte de governar, um tema central da pauta filosófica do século 6 a.C. Taigong discorre sobre como adquirir a confiança do povo, como conquistar um Dao adequado, as razões que levam um povo a subverter-se, etc. Estamos a ler, praticamente, um folhetim confucionista, com a exceção de que a importância da educação é substituída pelas questões da guerra na segunda parte. É difícil não conceber que este livro foi escrito, na verdade, ao mesmo tempo que obras como a de Sunzi, mas o pretenso autor do mesmo resolveu dar-lhe um enfoque diferente. Ele pretendia responder questões sobre as quais Sunzi teria se ausentado (e veremos porque no capítulo a seguir), e somos tentados a acreditar que, por meio de uma análise textual comparativa, há uma grande chance do texto de Taigong ser, inclusive, posterior ao de Sunzi. Como afirmamos antes, o autor dos Seis ensinamentos provavelmente quis associar o seu livro a um personagem histórico antigo para emprestar credibilidade e preeminência ao seu livro – algo comum na China daquele tempo.

Sima Qian nos fala pouco sobre a figura de Taigong, e o coloca como uma espécie de legislador e fundador do Estado de Qi. Isso é bastante conveniente, tendo em vista que a família Sun – de onde veio Sunzi e Sunbin – teriam vindo de lá, se deslocado para Wu, para Wei e depois, perambulado pela China como tantos outros... Fora isso, o próprio encontro de Taigong e o rei Wen é anunciado por augúrios, no 1º capítulo do livro, o que denota uma intenção propagandística do texto – algo diametralmente oposto a síntese estratégica e eficiente proposta por Sunzi.

Assim sendo, um estudioso de estratégia não deve dispensar a leitura dos Seis ensinamentos como algo fútil ou redundante, mas deve abster-se de dar-lhe uma primazia que talvez seja imerecida. Se o livro de Sunzi se firmou, isso se deve a razões particulares que explicaremos a seguir. A questão fundamental, aqui, é que a eficácia – objeto primeiro dos estrategistas – torna-se quase um elemento secundário na obra de Taigong, em que a longa dissertação sobre a análise das forças, do governo, das condições gerais, etc fortalece em si a preparação, mas quase desvia o foco da guerra como uma situação fundamental. Além disso, há informações e recomendações demais, tudo bastante distante do que se pretende ser um manual para militares e estrategistas. Embora a guerra envolva aspectos diversos, o livro de Taigong, na pretensão de explicar tudo, acaba perdendo-se em detalhes que cabem mais aos administradores do reino do que, propriamente, a um oficial militar. Como veremos, esta talvez seja uma das condições fundamentais que Sunzi percebeu ao redigir seu manual – dedicar-se, estritamente, ao que era de seu âmbito, e fornecer o instrumental necessário a uma situação específica.

Quanto ao Sima Fa (a Lei do Ministro da Guerra ou, em outra tradução possível, A Lei dos cavaleiros [guerreiros]), trata-se de outro obscuro tratado provavelmente feito no século 4 a.C., tal como o livro de Taigong. A suposta história do mestre Sima é de mais um destes especialistas que andou de Qi para Wei emprestando seus talentos aos governantes, e legando a posteridade sua sabedoria. O Sima Fa é um tratado sobre a preparação para a guerra, e um panfleto sobre a manutenção do código de conduta cavalheiresco no combate. Tal é o conteúdo do texto que os historiadores da dinastia Han o classificavam como um livro sobre cultura e ritos (Li), e não sobre estratégia! O discurso central do livro consiste em defender a idéia de que uma conduta moral superior na guerra inspira lealdade e determinação; por conseguinte, esta inspira vontade de vencer e leva a vitória; assim, o vitorioso é, no geral, o que é moralmente superior em estratégia e conduta.

Não é preciso dizer que o livro de Sima é uma tentativa saudosista de resgatar os velhos valores numa época em que eles estão em decadência. Por outro lado, lendo nas entrelinhas, podemos supor que a proposta de Sima era bem útil para justificar os expedientes utilizados pelos vencedores (posto que estes seriam, o fim, o vencedores morais).

O livro é considerado um bom texto sobre preparação, sobre conduta, mas acabou sendo muito pouco usado, efetivamente, como texto de estratégia. O próprio Sima Qian (o historiador Han) leu o livro do que seria seu suposto ancestral familiar e chegou a uma conclusão irônica: “não sei se este livro pode ganhar uma guerra, mas vendo que todo mundo hoje tem um exemplar, achei desnecessário discutir e fiz a biografia de Sima jang”.[1]



[1] Traduzindo: o livro provavelmente não serve de verdade para a guerra, mas quem ganhar quer parecer “moralmente superior”.

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