4º capítulo – Wuzi

Dentre os estrategistas, talvez o candidato mais qualificado ao título de perverso e crápula foi Wuqi – mais conhecido como Wuzi, ou Mestre Wu – que se destacou não apenas por sua obra, mas também, pelo que fez para promovê-la.

Wuzi foi um verdadeiro concorrente de Sunzi, e sobre ele temos inclusive datas para sua vida aparentemente reais e verificáveis – ele teria nascido em Wei, em 430 a.C., e foi executado em 381 a.C. Mas Wuzi não é lembrado por ter sido somente um excelente estrategista, e sim, pela coisas abomináveis que fez para conseguir cargos de confiança.

Até onde se sabe, Wu, quando jovem, foi aluno de um tal mestre Zeng, que tanto se irritou com o rapaz que acabou expulsando-o de sua escola. Wu se mudou então para Lu, a terra natal de Confúcio, buscando lá uma oportunidade. Como o confucionismo era praticamente a doutrina dominante em Lu, Wu resolveu investir em outro campo, e começou a estudar estratégias e técnicas militares. Conseguiu algum destaque, mas continuava sendo uma pessoa detestável e intransigente. Quando começou uma guerra entre Lu e o Estado de Qi, Wuzi pediu para ser nomeado ao comando das forças de Lu, mas o soberano tinha um pé atrás com ele – afinal, além de ser malquisto, a esposa de Wu havia nascido em Qi, e haviam dúvidas sobre a sua lealdade. Nesse momento Wuzi revelou seu verdadeiro caráter, mandando uma mensagem mais do que dúbia para a posteridade: matou sua esposa para mostrar sua fidelidade ao soberano de Lu. Causando um misto de admiração e pavor com esta atitude, Wu conseguiu o cargo de general, e resolveu a campanha de Lu contra Qi de modo eficaz.

Passado algum tempo, Wuzi simplesmente fez as malas e se mudou para Wei – seu país natal e terra das oportunidades para os estrategistas da época. Há que ser perguntar onde estava toda aquela fidelidade dedicada ao soberano de Lu, mas mudar de país, naquele momento, era algo comum para todos os intelectuais que precisavam de emprego. Para sua sorte, ele caiu nas graças do Marquês Wen, figura central do governo de Wei naquele momento, e desfrutou de regalias e poder enquanto ganhava as batalhas para sua terrinha. Mas em 387 a.C., com a morte do marquês Wen, e a ascensão de seu filho Wu, o gênio difícil de Wuzi cobrou suas dívidas, e ele teve que sair corrido de Wei para não perder a vida. Acabou se refugiando em Chu, onde encontrou guarida junto ao rei Tao, que o transformou em seu primeiro-ministro. Fiel a sua própria lógica, Wuzi prometeu fidelidade total ao rei – algo parecido com o que alguns jogadores de futebol fazem quando andam de clube em clube. Reorganizou o governo, criou leis, aplicou-as, e criou tanta antipatia em torno de si que, quando o rei morreu em 381 a.C., Wuzi não conseguiu escapar; cataram-lhe antes de fugir e o executaram.

Quando lemos estes dados biográficos de Wuzi, não temos dificuldade de perceber que ele devia ser alguém bastante antipático e intratável. Contudo, há uma faceta neste homem que o torna controverso e fascinante: ele era admirado e amado por seus soldados, compartilhava com eles suas conquistas e dificuldades, era tido como severo, mas também possuidor de um extremo senso de justiça. Segundo consta, lutou 76 batalhas, tendo empatado 12 e vencido todas as outras. Estendeu o território de Wei em milhares de quilômetros, e é possível que seu sucesso causasse uma inveja tremenda nos outros.

Estes detalhes seriam meras fofocas da história se o texto de Wuzi não fosse tão contrário, em proposta, ao modo de vida que seu autor teria levado. Wuzi nos apresenta uma espécie de resumo do que havia sido trabalhado nos Seis ensinamentos de Taigong, na Lei de Sima e ainda, incorpora alguns elementos da estratégia de Sunzi. Tudo isso é comprimido num texto pequeno – talvez o menor de todos os escritos estrategistas – e amarrado numa proposta moralizante de guerra, repleta de conceitos confucionistas de humanismo, benevolência e altruísmo.

O livro de Wuzi não traz nenhuma novidade em termos táticos ou de ataque, mas uma intensa preocupação com a qualidade do material humano empregado nas operações. Seu livro reforça os aspectos da seleção de oficiais e soldados, da formação da tropa, da conduta adequada em batalha (e fora dela), e do estabelecimento de um controle rígido sobre as ações e o comportamento do exército.

Para se ter uma idéia, Wuzi defendia, por exemplo, que nunca se deveria atacar os camponeses, nem pilhá-los. A gentileza e a cortesia para com eles ajudaria a conquistar a confiança do dominado, que veria no invasor um espécie de libertador – ou , ao menos, como alguém que não queria incomodar.

Wuzi também buscava encorajar os oficiais distribuindo benefícios as suas famílias, e valorizando o regime vigente. Assim sendo, construir uma imagem sobre este estrategista é definitivamente complicado: se por um lado ele pareceu ser alguém odioso, por outro, seus valores humanísticos suavizavam bastante o impacto da guerra, e conquistavam a soldadesca a seu serviço. Talvez por estas mesmas razões, aliás, ele seja esta figura contraditória: sua severidade assustava as elites corruptas, e causava admiração entre os mais humildes. Apesar disso, a historiografia chinesa não lhe perdoou, e salvou grande parte de seus erros para a posteridade.

Mesmo assim, o livro de Wuzi foi vastamente lido pelos estrategistas, já que parecia incorporar experiências diversas num texto enxuto e fácil de ser lido. Como vimos no capítulo anterior, segundo Hanfeizi, todo mundo tinha um exemplar de seu livro debaixo do braço.

Isso pode, talvez, significar que os estrategistas da época entendiam que o livro de Sunzi e Wuzi se complementavam (mais até do que, talvez, o livro de Sunbin), e nos itens que Sunzi optou por não adentrar (política, governo, etc.), Wuzi dava conta do recado sem ser uma leitura cansativa e pedante. Afinal, o livro de Taigong era longo e aborrecido, e repleto de conselhos para ponderação. Sima era pior ainda, propondo leis de cavalaria e cortesia que já eram passado; mas Wuzi propunha uma daquelas sínteses necessárias, fáceis de assimilar, e numa apresentação direta semelhante a de Sunzi. Wuzi empregou algumas histórias para ilustrar suas idéias - coisa que Sunzi deixou de lado, mas que foi profundamente explorado por Sunbin -, o que dá um balanço suave a leitura de seus escritos. É possível que, por ser uma figura mal vista, as pessoas não gostassem de citá-lo, apesar de estudar sua obra. Neste ponto, a figura misteriosa de Sunzi levava vantagem: afinal, ninguém tinha receio moral de se referir a ele, já que ninguém o conhecia ao certo.

Um comentário:

  1. PARABÉNS ! PELO SEU POST! CHEGUEI EM WU TZU ATRAVÉS DESTE LIVRO ......... https://www.amazon.com/Deciphering-Sun-Tzu-How-Read/dp/0199373515 ONDE APAREE JEN HUNG ! Vou mergulhar no seu blog! Abraço Celso Chini

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