5º Capítulo – O intervalo macabro de Qin

No final do século 4 a.C., o reino de Qin era considerado um dois mais bárbaros da China. Na visão dos contemporâneos, em Qin as pessoas falavam errado, eram grosseiras, sua música era feia, ficavam batucando em botijas de barro e não andavam em carros, mas em cima dos cavalos. Comiam mal, sabiam pouco sobre os ritos e a cultura erudita, eram pobres e ainda mantinham contato direto com os estrangeiros do Oeste.

Os sábios, que tanto andavam pela China em busca de emprego, tinham receio de ir pra lá. Qin era considerado uma punição, quase um exílio interno dentro do império. Mas quando o período dos Estados Combatentes começou, Qin resolveu que não ficaria para trás, nem levaria pancada dos outros reinos. A seu favor, Qin tinha duas coisas que nenhum outro Estado tinha nesta época: sendo um país “atrasado” e “inculto”, eles podiam experimentar fórmulas novas de organização política e militar, sem precisar ter que percorrer um longo caminho que as tradições exigiam: em suma, Qin não precisava “civilizar-se”, mas podia inventar sua própria civilização. Para isso, Qin contava com a outra vantagem, que era a quase total ausência de famílias ou clãs poderosos que pudessem ameaçar a formação de um Estado centralizado e moderno. O governo de Qin não precisava discutir suas reformas com quem quer que fosse, e as discordâncias internas podiam ser facilmente eliminadas.

O que ocorreu, pois, é que Qin atraiu todos aqueles pensadores cansados com as discussões intermináveis das escolas de pensamento, e dispostos a entabular novos projetos para o futuro. Uma característica geral dos intelectuais que foram para Qin era a desilusão com o humanismo confucionista, a percepção da incapacidade dos reinos de darem jeito na decadência geral, a necessidade de mudança – incluindo a abolição total do sistema imperial Zhou – e a criação de um novo país, unificado, com uma estrutura inédita de administração centralizada e construída por teorias alternativas.

E quem foi para lá? Os estrategistas e os legistas. Estas duas escolas foram o cerne do novo Estado Qin, e formaram uma simbiose eficaz no processo de reunificação da China – porém, sua continuidade foi marcada por um regime excessivo e violento, que veremos agora.

Façamos uma análise sobre quem eram os legistas, para entender melhor seu papel em Qin e sua conexão profunda com os estrategistas. Os legistas defendiam que o único Dao (caminho) que podia pôr ordem novamente na China deveria ser baseado num novo tipo de Fa (Lei) rígida, dura, e inequívoca, a qual todas as pessoas serviriam. Esta lei emanaria de um governo centralizado, em que as famílias importantes seriam abolidas, e substituídas por uma burocracia meritocrática, que responderia diretamente ao imperador por meio de uma escala hierárquica de responsabilidades claramente organizadas e definidas.

Os dois mecanismos principais de regulação social seriam a recompensa e o castigo, mediante o cumprimento (ou não) da lei estabelecida. Vejam que este ponto fundamental está presente em todos os discursos estrategistas, e é impossível saber quem influenciou quem. A questão é que os legistas conceberam que este princípio legal – que na visão dos estrategistas era eminentemente militar – deveria ser estendido a toda a sociedade, sem exceções.

O mais importante dos autores legistas, e que nos interessa aqui, foi Hanfeizi, que já comentamos antes, e que estava presente junto ao rei de Qin, no século 3 a.C., assessorando-o diretamente na construção de um novo Estado. Junto com ele havia um time de primeira: Lubuwei, um ex-mercador com vastos conhecimentos intelectuais; Lisi, outro especialista em legismo, e que havia estudado com Hanfei; e ainda, um estrategista pouco conhecido, mas que será fundamental neste capítulo, chamado Wei Liaozi.

Os legistas entendiam que para haver uma organização social harmônica e consistente, não deveriam existir discordâncias intelectuais – e para isso, as outras escolas de pensamento deveriam ser restringidas ou mesmo, proibidas. A única doutrina a ser estudada seria a da lei – e como alternativas, os legistas permitiam apenas o estudo da agricultura ou das artes militares.

Isso fazia todo o sentido, já que os legistas defendiam que para acontecer a uniformização do pensamento social, era necessário proibir as discordâncias em relação ao sistema. Isso ocorreria sempre que as pessoas tivessem oportunidade de pensar ou refletir sobre a vida, e a única maneira de impedi-las de pensar seria não dar-lhes espaço para isso. Assim sendo, os legistas imaginaram que se pudessem mobilizar constantemente a população, ela não teria nem tempo e nem oportunidade de discordar ou ponderar, o que facilitaria seu domínio, manipulação e instauração da ordem pública.

O melhor meio para fazê-lo seria, portanto, a divisão das atividades entre a agricultura e o serviço militar. Quem não fosse trabalhar no campo ou em obras públicas, labutando noite e dia, deveria servir nas forças armadas, sempre envolvidas com a escalada de conflitos intermináveis deste período. Este plano diluía as possibilidades dos camponeses se concentrarem para reivindicar o que fosse, do mesmo modo que a vida em caserna tinha uma série de exigências cotidianas que naturalmente afastavam outros tipos de elucubração por parte da soldadesca.

Só que Qin foi além: transformou a vida burocrática e militar numa carreira de sucesso, cheia de possibilidades para aqueles que fossem destemidos e audazes (dentro da lei, claro). Os soldados, por exemplo, ganhavam prêmios pelo número de cabeças cortadas, e um assassino profissional podia chegar à oficial facilmente. As tropas de Qin se caracterizaram pela disciplina incrível e pela ferocidade em combate.

Com isso, Qin conseguiu em pouco tempo montar um Estado novo, bem organizado e forte, com uma força militar incrivelmente determinada. A supremacia de Wei foi gradualmente abalada, e as forças de Qin foram conquistando reino a reino, num movimento irresistível. Suas campanhas foram avassaladoras, e seu exército chegou a ter 500.000 soldados. Em 221 a.C., Qin finalmente completou seu projeto de impor uma nova a ordem ao país, unindo-o novamente sobre o poder de uma nova dinastia – Qin, comandada por um soberano que se autodenominou Qinshi Huangdi – ou, o primeiro soberano de Qin.

Sabemos das realizações de Qinshi: ele unificou o país sob um único sistema – o legista – e com isso padronizou a escrita, os pesos, medidas, a moeda, e principalmente, buscou padronizar o pensamento. Como meio para continuar mobilizando o povo, Qinshi ordenou a construção de seu mausoléu – a famosa tumba dos guerreiros de terracota de Xian – e determinou a conclusão do trabalho de ligar várias muralhas separadas em uma só, que veio a ser conhecida como a grande muralha da China. Fez também a primeira grande queima de livros na história desta civilização, tentando proibir a propagação de outros pensamentos, perseguiu sábios e reprimiu o povo impiedosamente. Após sua morte, em 206 a.C., a dinastia dissolveu-se rapidamente, e o legismo passou um bom tempo sendo repudiado como teoria.

E onde entram os estrategistas nesta história? Na corte de Qin, conta-se que um tal Wei Liaozi estava junto dos principais assessores de Qinshi Huangdi, e ajudou em grande parte das formulações do novo reino. O namoro entre os legistas e estrategistas estava calcado no aspecto militarista de ambas as teorias. Estava bem claro o interesse legista em tornar o país de Qin num grande quartel, e tanto Hanfeizi como Lisi eram ávidos leitores de estratégias. Um legista anterior a eles, Shang Yang, já havia proposto o mesmo tipo de sistema, centrado na agricultura e no militarismo, e sua obra estava na cabeceira dos intelectuais de Qin.

Mas a transformação de um país num quartel exigia adaptações sérias de planejamento, e nem passava pela cabeça dos estrategistas anteriores proporem um sistema deste gênero. Mesmo Taigong, Sima Jiang e Wuzi estavam longe de projetarem a vida da caserna sobre a sociedade, e seus discursos referiam-se mais ao confucionismo ou ao daoísmo do que ao legismo. Quanto a Sunzi, sabemos que estas referências ecoam em sua obra, mas ele se absteve de fazer qualquer aprofundamento no sentido político da coisa. Esta adaptação coube ao desconhecido, porém importante, Wei Lioazi.

Quase nada sabemos sobre ele, e as informações a seu respeito são tão escassas quanto de Sunzi. No entanto, seu texto permaneceu relativamente bem preservado, e nos serve para compreender perfeitamente suas intenções.

Wei pretendia adaptar as teorias estratégicas de guerra à vida cotidiana comum. Sua teoria baseava-se na concepção de que um exército eficiente contava com uma série de fatores: soldados treinados e disciplinados, oficiais encorajados, leis rigorosas, deveres e possibilidades bem definidas, e um plano de ascensão individual. Se este mesmo sistema fosse aplicado aos cidadãos comuns, por meio de uma espécie de “ditadura militar esclarecida”, o sistema social estaria em ordem, e a pretensão legista – de unificar a sociedade por meio de uma única lei – alcançaria seu efeito desejado.

A tomada de poder na China, por parte de Qin, iludiu estes pensadores de que seus pontos de vista estavam absolutamente corretos. A instauração de um regime duro trouxe pujança econômica no início, mas em breve descambou para uma nova escalada de repressão e violência contra uma população cansada, insatisfeita e agredida. O que os pensadores de Qin não perceberam é que as estratégias consagradas em Sunzi – e mesmo em seus concorrentes – pregavam, insistentemente, que uma guerra não deve durar por muito tempo, que seus saberes se aplicavam em tempos de crise (não de paz), e que toda campanha longa gerava inevitavelmente um desgaste severo. Talvez esta seja mais uma das razões pelas quais Sunzi se calou sobre política: ele já sabia, de antemão, que governos que estavam sempre em guerra acabavam enfraquecidos. A tentativa de Wei Liaozi, de criar um sistema em que a guerra se tornava um dos fatores fundamentais da existência do sistema político, invertia perigosamente a relação das coisas: para ele, o Estado existia em função do conflito e da violência, e não para evitá-los ou resolvê-los. Ora, um país que vive da guerra fatalmente se desgastará, colherá inimigos aos montes, esgotará o povo e se autodestruirá. Uma entidade política não poderia existir e continuar em função da destruição.

Wei Liaozi acabou desaparecendo sem deixar rastros, e basicamente só temos o seu texto, em que ele discute, além de estratégias, as formas pelas quais um governo totalitário deve ser construído. Em comum acordo com os legistas, eles conseguiram transformar Qin numa grande potência, mas ao custo do sacrifício de milhões de vidas. Qin passou a ser detestado pelo povo e pelos intelectuais, e seu projeto inovador naufragou nas próprias bases, diante da contradição flagrante de um Estado que precisava de conflitos para “instaurar a paz e uma ordem duradoura”. Qin foi substituído pela Dinastia Han, que permaneceria no poder nos 6 séculos seguintes, e as teorias legistas foram sendo postas de lado gradualmente. Quanto aos textos estrategistas, estes foram relegados ao plano militar, onde foram conservados e lidos. O texto apolítico de Sunzi alcançou, por esta época, um sucesso inabalável, e continuou sendo aplicado nas instituições militares. Alguns escritores daoístas tentaram adentrar o campo da estratégia, mas nenhum deles nem sequer chegou a abalar o prestígio da Lei da Guerra. Como já dizia um antigo provérbio: “fazer o mais simples é sempre mais difícil”; e Sunzi conseguiu isso de modo brilhante.

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