6º capítulo – As Três Estratégias

A história do livro As Três Estratégias começa - se pudermos acreditar mais uma vez em Sima Qian - em torno de 216 a.C., uma década antes da dinastia Qin cair. Um jovem nobre decadente, chamado Zhang Liang, andava perdido pela China, pensando num meio de acabar com o imperador Qinshi Huangdi. Ele já havia realizado uma tentativa anterior, inteiramente fracassada, e estava totalmente desolado. Qinshi parecia ser inexpugnável, e nada indicava que a situação pudesse mudar. Foi então que, num belo dia, depois de muito vagar, Zhang Liang foi atravessar uma ponte, e deparou-se com um velho, que havia deixado cair seu sapato no rio. Zhang, educadamente, prontificou-se a buscá-lo. Quando trouxe o sapato, o velho chutou-o pra longe e pediu novamente Zhang para buscá-lo. Zhang ficou irritado, mas controlou-se e foi atrás do sapato de novo. Quando o trouxe, o velho simplesmente fez voar o calçado para ainda mais longe, e insistiu que Zhang fosse atrás do dito.

Numa história normal, Zhang, ou qualquer outra pessoa, achariam que aquele senhor estava fazendo uma brincadeira de mau gosto ou debochando de sua cara. Mas, como Zhang era um predestinado, de características especiais – e contra a lógica usual destas situações – ele foi atrás do sapato do velhinho, pegou-o e o trouxe de volta.

Ele estava de cabeça quente, mas controlado; foi o que permitiu que ele reparasse que o velho estava com uma aura estranha de autoridade, um brilho incomum, e de pronto modificou sua atitude. O ancião agradeceu a gentileza, e disse a Zhang que ele era uma pessoa especial. Pediu que dali a cinco dias o encontrasse num lugar convencionado, para dar-lhe um presente. Zhang ficou atiçado e curioso, e foi ao encontro do senhor dias depois. Quando lá chegou, o velho o esperava e gritou com ele: “Porque se atrasou tanto? Você é um grosseiro mal educado. Deixou um velho esperando! Volte daqui a cinco dias!” Zhang quase saiu do esquadro de novo, mas segurou-se. Voltou cinco dias depois, bem mais cedo do que antes, e encontrou o velho lá apenas para ganhar outra bronca e ouvir: “volte daqui a cinco dias!”.

Deve ser nestes momentos que os heróis mostram sua obstinação. Talvez por curiosidade, ou por que não tinha nada melhor para fazer, Zhang decidiu fazer diferente. Foi quase um dia antes no lugar marcado e ficou esperando. O velho chegou, sorriu-lhe e disse: “paciência e disciplina, agora sim. Este é o caminho”. Deu-lhe um livro e continuou: “Você será o mestre do novo imperador daqui a dez anos. Daqui a treze anos, nos encontraremos de novo perto da margem norte do rio Chi. No pé do monte Guqian haverá uma pedra amarela: serei eu”, e desapareceu. Ele nunca mais foi visto.

Quando terminou este encontro estranhíssimo, Zhang Liang olhou o livro que havia ganho e percebeu que se tratava de um tratado militar desconhecido. O livro parecia ser simples, e aparentemente combinava os textos de Taigong com os de Sunzi e de outros autores. Ele dividia-se em três partes apenas: as estratégias superiores, medianas e inferiores. Por causa disso, ele acabaria sendo chamado de As três estratégias, e para evitar confusões, a tradição chinesa o salvou como As três estratégias do duque da pedra amarela.

Quando Sima Qian escreveu os Registros Históricos, ele tomava o cuidado de se certificar sobre os eventos, as fontes e os personagens que apresentava, mas em certas ocasiões – seja porque isso fosse verdade para ele, seja porque ele gostava de apimentar suas histórias – Sima não se furtava a colocar estes acontecimentos mágicos no meio de suas narrativas. Por causa disso, qualquer afirmação sobre a história das Três estratégias é problemática, e não podemos nos fiar na lorota de Zhang Liang. O que podemos saber sobre este livro, então?

As três estratégias poderiam ser consideradas, com efeito, a antítese do livro de Wei Liaozi. O texto provavelmente foi escrito no início da época Han, após a derrocada de Qin, e serviria para a instituição da nova dinastia. Elas propõem um uso inteligente da estratégia, mas baseados numa razão de governo totalmente diferente da legista. Ao separar as estratégias em três classificações, o livro nos apresenta, na verdade, uma estratégia para usar as estratégias. O emprego da estratégia não poderia ser indiscriminado, bem como não deveria ser utilizado em qualquer situação, como muitos supunham. Para cada nível de problema ou contexto, existiria um método adequado para lidar com ele. Assim, o “Duque da pedra amarela” (o suposto “verdadeiro” autor das Três estratégias), defendia que as estratégias, como dissemos antes, poderiam ser divididas em três, que seriam:

- As estratégias superiores: aquelas que tratam do certo e do errado, do apropriado e do incorreto, separam o bom do mau, e permitem prever o sucesso ou o fracasso.

- As estratégias medianas: permitem diferenciar o que é virtuoso do que é apenas conhecimento, e observar as variações no emprego da força e do poder.

- As estratégias inferiores: investigam o que é seguro ou não, se as estratégias estão seguindo o caminho apropriado aos fins, e se vão levar a calamidade ou a fortuna.

O livro ainda diz que as estratégias superiores devem ser empregadas para identificar os sábios, e separá-los dos inimigos. As medianas, para controlar os generais e unir o povo. As inferiores, para governar corretamente, e conduzir os eventos, afastando os perigos e favorecendo a boa conclusão das coisas.

O mais curioso é que este mesmo texto cita uma série de manuais militares dos quais nunca ouvimos falar antes. Em Sunzi há uma única referência a um deles, o que pode significar que estamos diante de materiais inéditos, que poderão ser desencavados, num futuro próximo, de uma tumba qualquer da China. De qualquer modo, as Três estratégias são cheias de conselhos para administrar o país e os exércitos, se precavendo contra as guerras e dissolvendo as tensões sociais. De fato, ele se parece mais com o livro de Taigong, Wuzi ou de Wei Liaozi, mas é inteiramente novo no modo como apresenta suas teorias, as fontes as quais recorre, e principalmente, na sutileza com que aborda o problema da estratégia. Afinal, as Três estratégias consistem num exame acurado do que empregar, quando, como e contra quem os recursos da força, do poder e da inteligência. Ele está longe de ser um livro apolítico como Sunzi ou Sunbin, mas também não está absolutamente engajado em uma corrente de pensamento qualquer – senão refutando, de modo geral, o legismo da obra de Wei Liaozi. Isso faz sentido quando analisamos o caráter intelectual da dinastia Han, principalmente em seus primórdios, após a dura guerra civil que se seguiu a queda de Qin. Liu Bang, o primeiro imperador Han, era um ex-camponês que com muita dificuldade estudou alguma coisa, mas que se destacou por ser extremamente inteligente, conhecedor de estratégias e um administrador flexível. Conta-se que uma vez, enraivecido com a indecisão de seus conselheiros, ele urinou em seus chapéus. Contudo, ao debater com um de seus principais auxiliares, Lujia, Liu Bang mostrou porque tinha futuro como fundador de uma dinastia. Ele teria afirmado que “havia conquistado o império de cima de seu cavalo. Para que ler?”, ao que Lujia respondeu: “O senhor pode ter conquistado o império com seu cavalo, mas pode governá-lo de cima dele?”. Liu Bang sentiu que finalmente havia escutado uma opinião inteligente e convocou Lujia a redigir os novos princípios de governo da dinastia, que se concretizaram em um livro chamado Novos Princípios da Política.[1] Este livro defendia um retorno da tolerância, do humanismo e da benevolência confucionista como características apropriadas de um bom governo. No entanto, Lujia introduziu aí uma síntese interessante: a conciliação da liberdade individual (conceito daoísta) com a existência de uma lei severa e conscienciosa (ao modo legista), mas sem ser excessiva ou arbitrária. E como fazer isso? Por estratégias de governação.

Deveria ser dada, às pessoas, a liberdade – mas suas opções deveriam se calcar numa consciência preparada pela educação, e vigiada por uma lei que impedisse os excessos ou as desigualdades. Preferia-se “corrigir” ao “punir”, mas o governo precisaria manter-se atento a condução dos negócios sociais, para impedir que eles descambassem em desregramento ou conflito.

É neste momento em que começamos a observar um trânsito de idéias entre as Três estratégias e o livro de Lujia. Embora ele não esteja declarado – mas como era hábito na época, Lujia cita idéias, mas praticamente nenhum autor – pensa-se uma forma de governar que seja previdente, evitando a guerra por meio da administração dos conflitos, qualificando funcionários e generais, preparando políticas governamentais que sejam claras e administrando a vida pública de maneira suave e coerente. Podemos nos perguntar se as Três estratégias, na verdade, não seriam quase que um disfarce para as três escolas – confucionismo, daoísmo e legismo – nomeando-as como as estratégias superior, mediana e inferior; mas a análise dos temas, bem como os textos citados, nos fazem supor que estas idéias estão todas misturadas ao longo dos três capítulos, e fazer tal afirmação seria arriscado. De qualquer modo, é bem possível que este livro – junto com o de Lujia – tenha sido uma das leituras mais importantes da época Han, que teve que enfrentar várias guerras ao longo de sua existência duradoura. A sobrevivência e a violência eram condições absolutamente presentes naquela época, e o que podemos chamar de “tempos de paz” significavam, na verdade, apenas um momento da história chinesa em que havia menos guerras, e um governo forte para enfrentá-las e administrá-las.

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Em tempo: Zhang Liang de fato existiu, e apesar das histórias estranhas que o rondam, ele esteve presente no momento da entronização de Liu Bang como o primeiro imperador de Han. Tempos depois, visitou, junto com o imperador, o lugar que o velho indicara, e encontrou a pedra amarela. Guardou-a consigo até a morte, que foi tranqüila. Não é impossível que o próprio Zhang Liang tenha escrito as Três estratégias, mas criou uma lenda fabulosa para enobrecer o livro. No mais, Zhang Liang e Lujia se conheceram e trabalharam juntos durante algum tempo, mas não sabemos se foram amigos, e que impressões trocaram. Todavia, a análise dos livros de ambos demonstra uma profunda afinidade de idéias, que não deve ser menosprezada.

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Quanto ao nosso caro Sima Qian, que nos permitiu até aqui saber dos detalhes da vida destes homens, vale contar sobre um pouco sobre o seu destino como historiador – que tem relação, inclusive, com a história das estratégias chinesas. Sima viveu durante o tempo de Wudi (141-87 a.C.), um dos mais longevos imperadores chineses, e cujo título – Wu, o marcial – já indicava o seu desejo de expandir as fronteiras do império. Wudi foi um grande conquistador, e administrou relativamente bem o país, mas tinha um gênio dificílimo. Um de seus generais, Liling, foi enviado para combater no noroeste do país com uma força militar de cinco mil homens, e defrontou-se com um exército inimigo gigantesco, formado por aproximadamente trinta mil cavaleiros. Como sua tropa era essencialmente de infantaria, Liling adotou uma tática inovadora, colocando os lanceiros à frente e posicionando os arqueiros e besteiros atrás das primeiras linhas. Com isso, ele conseguiu fazer com que os inimigos não conseguissem penetrar suas formações, sendo aniquilados pelas flechas. Liling havia antecipado em séculos estratégias que seriam consagradas pelos ingleses em Crécy e Azincourt, na idade média, ou depois, pelo exército imperial britânico no século 19. No entanto, o sucesso de Liling não foi aproveitado, e ele foi abandonado à própria sorte, não recebendo reforços. Quando o estoque de flechas acabou, sua tropa teve que se render, e ele acabou sendo preso.

Wudi ficou furioso com a derrota, e com captura de seu oficial. Estava na cara que algum funcionário da corte havia cometido um erro – fosse por arrogância em confiar na tática inovadora de Liling, fosse por inveja do mesmo – e o haviam deixado na mão, com uma perda vergonhosa.

Infelizmente, bons intrigantes sabem como fazer as coisas, e o discurso geral dos auxiliares da corte foi de que o próprio Liling havia se excedido e agido de modo imprudente. Como ele não estava lá para se defender, a desculpa parecia boa – até mesmo para o imperador. Neste momento, porém, Sima Qian interveio a favor de Liling, defendendo-o de modo sincero e coerente. Seu argumento era de que Liling não estava presente para expor sua defesa, bem como para identificar o responsável por não enviar reforços, causando o desastre no noroeste. Louvou ainda a inteligência de sua tática, o que demonstrava que ele não deveria ser um oficial imprudente, e que conhecia questões de estratégia.

Os intrigueiros ficaram de calças na mão, e precisavam de uma saída. Resolveram mexer com os brios do imperador, e como meio de desviar a discussão, acusaram Sima Qian de estar desafiando sua majestade, discordando dele e apoiando um incompetente. Wudi, de cabeça quente e pouco disposto a continuar aquela conversa, resolveu bater o martelo do modo mais rápido e condenou Sima pelo crime de ofensa. Tal crime era punido com uma multa pesada ou com a castração; mas o azarado Sima era pobre, e não tinha dinheiro para pagar a multa. Seu triste destino foi virar eunuco, sendo desgraçado com a pena de não poder constituir família. Contudo, ele sobreviveu a esta indignidade, e manteve-se firme na missão de escrever a sua grandiosa obra sobre a história da China. Numa carta endereçada a um amigo, curiosamente, ele se lamenta de ser um aleijado como Sunbin – mas que não desistira, de qualquer modo, de prosseguir em sua missão.



[1] Xinyu, que pode ser traduzido como Novos Discursos ou Novos pronunciamentos. Curiosamente, Jean Levi, destacado sinólogo francês, interessou-se em realizar a tradução do Xinyu de dispomos após traduzir a Lei da Guerra de Sunzi.

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