7º Capítulo – A Redenção de Sunzi

Para os chineses, a história é cíclica. Nenhuma dinastia dura pra sempre, bem como as mudanças do mundo dependem das crises. Sima Qian havia analisado isso, devidamente bem, nos seus extensos Registros Históricos. Mas eles eram do século 1 a.C.; depois disso, a dinastia Han ainda durou bastante, mas tinha que acabar – e os fins, em geral, são violentos.

Em torno de 184 d.C., uma série de revoltas abalou a estabilidade da dinastia. Houve uma grave crise no campo, acompanhada de um período de fome. Sabemos que as crises da antiguidade se estabelecem numa espécie de tripé, que seriam fome, guerra e doença. Quando um começa, detona acidentalmente o início os outros, caso o poder institucional não interfira. Ora, a situação que encontramos na China Han deste período era propícia a uma destes caos destruidores; o império estava debilitado por lutas entre facções internas, que na corte dividiam-se entre militaristas, clãs antigos, eunucos e letrados. Este descaso com o campo fomentou uma revolta profunda entre os camponeses, esfomeados e doentes, que começaram a se juntar num movimento denominado turbantes amarelos, cuja orientação misturava discursos místicos com reforma social. Rapidamente eles se espalharam, dominando – pela via armada – vastas regiões do país.

Um ministro chamado Cao Cao tentou, inicialmente, dominar a dinastia Han manipulando o imperador, vencendo a insurreição e forçando sua nomeação como primeiro ministro; contudo, acabou promovendo uma tentativa de derrubar o governo, e lançou o país numa divisão total em 206 d.C. Cao Cao era um excelente estrategista, poeta, e leitor ávido de Sunzi. Ele conseguiu abocanhar uma parte do país com ajuda de seu filho, Caopi (outro brilhante general), no qual fundariam depois sua própria dinastia, a Wei. A parte que se pretendeu leal a casa de Han se auto-firmou como dinastia Shu-Han, e era governada por Liu Bei; por fim, uma terceira parte declarou sua independência, se proclamando dinastia Wu, no sul da China. Esta foi a época conhecida famosamente como Era dos Três reinos, na qual as estratégias foram retomadas de maneira intensa, e a guerra tornou-se uma realidade presente por mais de quarenta anos.

No imaginário chinês, este período da história é marcado por heroísmos inesquecíveis, batalhas épicas e artimanhas infindáveis pelo poder. Cao Cao consolidou-se como uma espécie de arquivilão, um general imbatível, culto e sedutor, mas cujas pretensões eram más. Esta visão não é absolutamente correta, já que ele se tratou de um intelectual interessado e profundo, apesar de ambicioso. Parte de sua indignação e revolta contra os Han foram motivadas pelas vilanias do regime em seu final melancólico. Cao Cao chegou a ser chamado para assumir o governo, mas declinou. Sua figura, complexa, é mais uma dessas cujo julgamento posterior dado pelos historiadores não foi absolutamente gentil ou favorável.

Mas os romances que vêm depois da história precisam definir papéis. Seu principal antagonista, e o grande herói deste período, foi Zhuge Liang (também chamado de Kungming), defensor fiel de Liu Bei. Zhuge era um estrategista igualmente capaz e brilhante, e tanto seus embates contra Cao Cao ou com outros inimigos são conhecidos como aventuras incríveis. As histórias de ambos transformaram-se em contos morais ou de astúcia, e são utilizados até hoje para ilustrar exemplificar inteligência, sagacidade, estratégia e habilidade. Para termos uma idéia do fascínio que estas batalhas épicas proporcionaram, por exemplo, veja-se a figura de Guanyu, um dos bravos guerreiros de Shu-Han, que tornou-se um deus, chamado Guandi, defensor da justiça e protetor dos fracos, depois de realizar façanhas incríveis e desaparecer misteriosamente.

Foi este clima de intensos combates entre os três reinos que trouxe de volta a moda das leituras estratégicas, mas contando com o aspecto absolutamente prático da necessidade de vitória. Talvez seja por essa razão que os empates técnicos fossem mais constantes do que as vitórias acachapantes. Todos estes grandes generais da época eram estudiosos, e nenhuma deles levava jeito para trouxa.

Desenvolveu-se, por conta disso, um fenômeno curioso, porém interessante em nossa história, que foi o resgate redentor da obra de Sunzi. Tanto Cao Cao quanto Zhuge Liang o leram, o aplicaram, e como se não bastasse, escreveram seus comentários particulares sobre a obra, levando seu embate para as rodas literárias e para os militares.

O Livro A Lei da Guerra foi considerado o texto perfeito e acabado sobre como lidar com as guerras. Ele simplesmente lançou nas sombras todas as outras obras de estratégia, e passou a ser o foco das atenções dos estudiosos de estratégia. Cao Cao, mesmo sendo um letrado extremamente culto – ou exatamente por causa disso – divulgou amplamente a obra, e fez mais: incluiu seus próprios comentários em certos tópicos da mesma, propondo uma edição que foi largamente apreciada. De fato, acredita-se hoje, inclusive, que o formato do livro que temos em mãos é baseado diretamente em sua versão final.

Zhuge não ficou para trás, e fez uma extensa análise da obra, que dividiu-se em vários pequenos livros. Embora menos conhecidos dos que os comentários de Cao Cao, os escritos de Zhuge também foram bastante respeitados e lidos, apesar de suas análises teóricas serem consideradas (embora muito sábias) cansativas. Ou seja, a regra da eficácia e da simplicidade voltava à baila: enquanto Cao Cao deixava seus pensamentos anexados a Sunzi, Zhuge era mais conhecido por suas histórias de heroísmo e bondade do que, propriamente, por seus pensamentos. Que ironia!

O destino trágico destes homens tinha que se encontrar, fatalmente, de um modo ou de outro, e isso ocorreu na terrível e fantástica batalha de Chibi (ou Garganta vermelha), romântica e magistralmente retratada no filme de John Woo, A batalha dos três reinos. Envolvendo quase um milhão de guerreiros, forças terrestres e navais, ela foi o exemplo perfeito do jogo da estratégia e da supremacia. Cao Cao foi ao encontro de Shu-Han e Wu. Depois de horas e dias de movimentação, a carnificina começou, e a água se tingiu de vermelho. As espadas e lanças perderam o fio depois de cortar tanta carne, e os corpos flechados tinham mais buracos que peneiras. Corpos calcinados pelos ataques com fogo espalhavam-se pelo rio Yangzi e pelas margens próximas. Uma destruição de características apocalípticas envolveu os três exércitos, mas no final, a superioridade das estratégias navais de Wu prevaleceu, e Cao Cao perdeu a batalha. Pior do que isso, virou o vilão da história. Contudo, ele conseguiu impor respeito às forças adversárias, e manteve o reino de Wei, falecendo por lá em 220 d.C. Zhuge, o grande vencedor, colheu os louros desta vitória grandiosa, mas que na verdade, apenas ratificou limites. Os três reinos continuaram a existir, e a China estava ainda longe de ser reunificada. Alguns anos depois, o mesmo Zhuge Liang estava cansado, e morreu de exaustão no meio de uma campanha com apenas 54 anos.

A batalha da garganta vermelha foi vencida por meio de um estupendo jogo de estratégias, envolvendo uso de espiões, domínio da meteorologia e da topografia, artimanhas e estratagemas incomuns. Uma das historietas mais famosas deste encontro é a dos barcos de palha. O exército dos aliados de Shu e Wu estava em desvantagem numérica e sem flechas para enfrentar as forças de Cao Cao. Zhuge bolou um artifício engenhoso para roubar munição do inimigo: prevendo que haveria neblina, ordenou a construção de alguns barcos, forrados de palha, que deveriam ir na linha de frente de um ataque simulado. Assim, quando as névoas vieram, Zhuge ordenou que sua frota avançasse, chamando a atenção da guarnição da Cao Cao. Estes reagiram ao suposto ataque, e despejaram milhares de flechas sobre os barcos de palha, sem que conseguissem, de fato, ferir um inimigo sequer e nem ao menos percebessem o engodo. Depois, os aliados recolheram as flechas cravadas na palha e se prepararam para a luta.

Zhuge Liang, pois, manobrou habilmente o uso dos recursos de seu exército, a captura de materiais do inimigo, o ataque com fogo e ainda, o domínio do tempo, prevendo com sutileza mudanças climáticas que favoreciam suas forças, inferiores, no curso do combate. Ele demonstrou um domínio e friezas fundamentais para a vitória, mas mais do que isso: seu conhecimento sobre a Lei da Guerra de Sunzi se comprovou superior ao de Cao Cao. Os momentos fundamentais desta batalha foram decididos pela aplicação de alguns capítulos claramente descritos no livro de Sunzi.

Séculos depois, a história destes gênios da estratégia virou um famoso romance, intitulado O Romance dos três reinos (Sanguozhi), que também transformou-se em uma das mais famosas e consagradas óperas chinesas. Existem, ainda, jogos eletrônicos que reproduzem o conflito dos três reinos, nos quais o jogador deve aprender, inclusive, um pouco da história desta guerra, sem o que ele não consegue avançar de fase...

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Como comentamos no início deste capítulo, a história, para os chineses, é cíclica. Depois de alguns séculos de desunião, a China voltou a ser uma unidade pelos Sui (589-618) e depois, pelos Tang (618-907). É muito grande a nossa tentação de achar que, por trás destas grandes reunificações, existem sempre grandes líderes que resolveram tudo sozinhos. Como dizem os chineses, porém, os sábios atuam nas sombras – e somente outros sábios podem perceber e entender isso.

Curiosamente, alguns séculos depois das aventuras incríveis dos três reinos, a pungente e irresistível dinastia Tang recebia enviados de todas as partes do mundo. O comércio enviava sedas (e possivelmente, porcelanas) para todas as partes do mundo conhecido; artistas estrangeiros eram representados na cerâmica tricolor da moda; enviados do império romano bizantino e dos árabes postavam-se de joelhos ao imperador Tang, pedindo favores comerciais; e intelectuais proeminentes escreviam comentários para...A lei da Guerra, de Sunzi!

Vamos olhar para o tempo em que os Tang viviam: apesar de cosmopolitas e transculturais, a dinastia tinha que enfrentar alguns problemas reais. Um deles, por exemplo, foi a tentativa de invasão árabe, repelida na terrível batalha de Talas, em 751 d.C. A historiografia ocidental gosta de afirmar que os chineses foram derrotados neste grandioso embate, mas isso é um engano tremendo; na verdade, trata-se de um complexo de culpa, já que os europeus passaram séculos com medo do Islã. De fato, a batalha de Talas se tratou de um encontro magnífico entre as forças combinadas do Islã árabe – o que incluía fiéis provenientes da Espanha e da Arábia saudita – contra uma China multicultural, disposta a aceitar qualquer religião, desde que ela não atentasse contra a dinastia estabelecida.

E qual foi o resultado? Nenhum, senão que os chineses se dispuseram a reconhecer o islã como uma religião, contanto que eles aceitassem a lei básica chinesa – o que os muçulmanos fizeram, e sem ceder nenhum território. Se isso for uma derrota, como alguns autores ocidentais afirmam, precisamos, então, rever nossos conceitos de vitória e de sucesso.

A batalha de Talas foi uma das mais importantes do mundo antigo. Ela marca o fim da expansão muçulmana no extremo oriente, assentando o islã principalmente na Índia e na Malásia. Se a batalha de Chibi foi grandiosa, Talas foi simplesmente hiperbólica. Os números contaram-se aos milhões; houve fome nas regiões próximas, por conta da movimentação das tropas; gentes de várias partes do mundo se encontraram, ali, para celebrar a morte. Os islâmicos vieram com sua tradicional cavalaria, veloz, audaciosa, mas levemente armada; os chineses, tradicionalmente infantes, lembraram das lições de Liling e posicionaram-se a espera do ataque. Tudo prenunciava a hecatombe mortal, para a qual os chineses estavam, há séculos, preparados com suas estratégias... ou não!

Por motivos politiqueiros, um general coreano, chamado Gao Xianzhi, que entendia bulhufas de estratégia, foi enviado para comandar as forças Tang neste terrível confronto. O lugar da batalha, perto do rio Talas (que emprestou seu nome ao evento) ficava no longínquo Afeganistão, que na época, era parte a rota da seda e tributário dos chineses. Gao cometeu uma série de erros, que comprometeram a vitória chinesa e permitiram um empate custoso. Para a intelectualidade chinesa, a impressão que ficou foi a de derrota- ainda que o império Tang não tivesse perdido nenhum território substancial. No entanto, isso motivou um aprofundamento do estudo da estratégia, transformando-se num debate que gerou inúmeros comentários sobre a Lei da Guerra. Na versão que conhecemos hoje do livro, e que incorpora os comentários de especialistas de várias épocas (incluindo Cao Cao), quatro deles são autores da dinastia Tang: Jia Ling, Li Quan, Duyou e Dumu. Os dois primeiros são pouco conhecidos, e Li Quan parece ter sido, ainda, um sábio misterioso ligado a práticas exotéricas. Duyou, porém, tinha dezesseis anos quando a batalha de Talas aconteceu, e acompanhou diretamente o evento. Tornou-se um importante conselheiro militar e funcionário da dinastia, e foi seguido por seu neto, Dumu, nos estudos da estratégia.

O que estes pensadores faziam, no geral, era aceitar o texto de Sunzi, mas tecendo apontamentos sobre questões que julgavam dúbias ou mal esclarecidas. Seu questionamento básico era: se Sunzi era tão claro, porque alguns generais não conseguiam aplicá-lo? Baseados nesta premissa, estabeleceu-se a relação dos debates e fragmentos de comentários que recheiam a obra, orientando o leitor nos mais diversos sentidos. Chega a ser divertido quando um autor discorda do pensamento de outro, o que mostra que a inclusão destes pensamentos foi sendo feita gradualmente, de modo que um pudesse ler, analisar e ponderar sobre os apontamentos do antecessor.

Durante a dinastia Song (907-1278), este processo continuou, e mais cinco comentadores adicionaram seus nomes ao texto de Sunzi. O primeiro, Zhangyu, era realmente um especialista em artes militares e um historiador de heróis guerreiros e generais; Mei Yaochen era um literato, encarregado de organizar a biblioteca imperial, e um leitor curioso da obra; Wangxi era um historiador de mão cheia, e funcionário público capacitado; Chen Hao foi um general magnífico, astuto e vencedor; por fim, um tal Hoyanxi aproveitou a deixa e legou alguns comentários para obra –e é só isso que sabemos sobre sua figura.

Tanto estudo parecia indicar a invulnerabilidade chinesa no campo da guerra e do pensamento marcial. A descoberta da pólvora, amplamente usada entre os Song, parecia garantir uma supremacia incontestável. Durante esta dinastia, escreveu-se, inclusive, a primeira enciclopédia de armas (Wujing Zongyao, de Zeng Gongliang), que continha catapultas, barcos armados, explosivos, lança-chamas, protótipos de canhões, flechas incendiárias, etc. incorporando milênios de experiências no campo militar (neste mesmo catálogo é que aparece, pela primeira vez, a fórmula definitiva da pólvora). Outro livro de estratégias, de autor desconhecido, surgiu neste mesmo momento, sendo chamado de Cem estratégias incomuns. Trata-se de um catálogo de estratégias diferentes das usuais, criativas, inovadoras, que estavam presentes nos livros de estratégia desde Sunzi.

Contudo, existe uma “regra” na história chinesa que, usualmente, pode valer para outras histórias do mundo. Quando esta civilização começa a escrever bastante sobre um determinado tema, ou é porque este assunto é pouco conhecido, ou é porque ele está sendo esquecido. No caso dos Song, todos estes estudos militares nos mostram que o governo estava pouco interessado, de fato, em questões marciais. Os Song foram displicentes nos seus cuidados militares, seu exército não era grande e nem bem preparado, e geralmente se contratavam mercenários para realizarem missões punitivas e/ou oficiais.

Por causa disso, os chineses ficaram embasbacados e surpresos quando, numa manhã assustadora, estava lá Gengis Khan e sua turma, vindo das estepes mongólicas, para sitiar Beijing e o restante do país. Gengis adorava a guerra, e seu desejo era o de transformar a China numa grande estepe. Ele era, porém, um líder brilhante e inteligente, além de conquistador nato. Rapidamente percebeu que seria muito mais vantajoso manter a China sob seu domínio do que destruí-la. Assessorado por um sábio chamado Yeluchucai, Gengis construiu as bases para uma nova dinastia sino-mogólica (os Yuan, 1280-1368), e estudou detalhadamente os manuais de guerra e estratégias chineses. Uma contradição latente, mas o dominado ensinava ao conquistador novos modos de lutar. Quando as hordas mongóis atacaram a Ásia central, a Rússia e a Europa, levaram consigo armas, maquinário e estratégias chinesas, que lhes granjearam a fama de invencíveis.

De qualquer maneira, a fama de Sunzi estava absolutamente consolidada daí por diante, e ele se transformou no grande nome da estratégia na história chinesa.

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