8º capítulo – As 36 estratégias e Liuji

O final da dinastia mongol foi melancólico. Depois de terem conhecido grandes imperadores e fazerem parte de um império mundial, os mongóis haviam se acostumado com a indolência das cortes, e sua poderosa cavalaria era uma vaga lembrança do passado. Incapazes de controlar o vasto território de seus domínios com uma força numericamente exígua, eles foram obrigados a terceirizar, gradualmente, suas forças armadas com chineses, coreanos e tribos do norte asiático. Fracassaram de modo vergonhoso ao invadir o Japão, e apanharam nas selvas do Vietnã. Por fim, abandonaram aos poucos as lidas militares, e no final, quando estourou a revolta chinesa contra a dinastia, estes antes tão orgulhosos cavaleiros foram expulsos vergonhosamente do país a pé, por debaixo da grande muralha.
A dinastia que se seguiu, a Ming (1368-1644), foi o último período imperial de poder legitimamente chinês. Um forte senso militarista se estabeleceu entre os novos governantes, que de início deram um incentivo geral a reforma das forças armadas. Neste período, testemunha-se um grande avanço nas técnicas militares – a difusão do canhão, por exemplo – e mesmo um desenvolvimento da tecnologia naval, como foi o caso da famosa armada de Zheng He, que em torno de 1420-40 pode ter chegado a América, depois de realizar um vasto périplo pela África, Ásia e Oceania. No campo da estratégia, três contribuições destacam-se neste período: primeiro, as Lições da Guerra de Liuji, um ex-funcionário da corte mongol que mudou de lado e serviu no início do governo Ming; o aparecimento das Trinta e seis estratégias, livro misterioso e sucinto, mas que se tornou um sucesso de divulgação tanto nos meios cultos quanto populares; por fim, a iniciativa dos governantes Ming de criarem uma grande coleção de livros oficiais, juntando todo o material literário das dinastias anteriores, nos quais se incluíam os clássicos dos estrategistas. Graças a esta última política cultural, muitos destes livros que estavam dispersos foram novamente recolhidos e publicados, sendo dados novamente a conhecer.
Os Ming não eram apenas traumatizados com as perdas históricas da cultura chinesa tradicional durante o período mongol, mas tinham um receio recorrente quanto aos estrangeiros – fossem eles bárbaros do norte, já conhecidos, ou novos intrusos, como era o caso dos europeus que começaram a aparecer em suas praias e portos. Estes brancos estranhos e tão diferentes eram agressivos, tinham tecnologias curiosas e hábitos muito diferentes. Sua presença marítima nos mares asiáticos era audaciosa, mas bastante ativa e determinada. Os povos do oeste (portugueses, espanhóis, ingleses e holandeses) negociaram de vários modos – às vezes por meio de guerras, às vezes pela diplomacia – sua presença junto ao mundo chinês, e representavam um novo desafio militar para a dinastia. Os Ming eram capazes de resistir militarmente a estas presenças incômodas em seu território, mas perceberam, rapidamente, que a China estava começando a perder a corrida tecnológica na história mundial.
De fato, em torno dos séculos 15 e 16, os chineses começaram a desenvolver uma atitude, diante do mundo, extremamente perigosa para sua própria sobrevivência. O império Ming, receoso de que as incursões estrangeiras pudessem prejudicar sua continuidade histórica, política e cultural, iniciaram um projeto de fechar a China aos visitantes estrangeiros, minimizando a entrada de elementos estranhos a sua sociedade. Principalmente no século 16, quando os portugueses chegaram às costas do país, e tentaram instalar-se em Macau, suas primeiras tentativas de enfrentar a dinastia culminaram com derrotas fragorosas para os chineses. A China ainda tinha um poderio equivalente ao dos europeus, além da vantagem numérica; conheciam a técnica de artilharia, e seu potencial naval não era desprezível, mas prefeririam isolar-se dos outros países, limitando o comércio exterior a alguns portos, principalmente pelo receio de que novas idéias entrassem no país. Tal atitude mostra, desde já, que os Ming acreditavam, equivocadamente, que poderiam encontrar todas as respostas para suas necessidades de sobrevivência no passado, nos antigos escritos, na sabedoria tradicional. Desprezando as novas tecnologias, os Ming não podiam conceber os avanços que se desenvolviam na Europa, e fechavam-se perigosamente aos rumos da geopolítica mundial da época. Mesmo a política de salvação das obras do passado, como vimos, é um sintoma disso.
Para termos uma idéia do desenrolar desta política eremítica da China, podemos acompanhar alguns exemplos marcantes. Um deles foi o abandono das técnicas marítimas desenvolvidas na época das viagens do almirante Zheng He, e a ordem para esvaziar as praias chinesas de habitantes (e por causa disso, pescadores e comerciantes portuários passaram a ser mal vistos). Por outro lado, este período é o auge do Templo Shaolin, centro das artes marciais chinesas - que apesar de não ser tão milenar como se supõe, já que os Ming eram seus grandes patrocinadores – era considerado, principalmente, um grande perpetuador das tradições militares chinesas, com seus monges peritos na arte do combate clássico, o wushu (arte marcial) ou kungfu (habilidades de combate). Ora, não demorou muito para que estas políticas equivocadas surtissem seu efeito negativo; já no século 16, os piratas japoneses (chamados wako) infestaram as costas chinesas, saqueando cidades, fazendo escravos e contrabando. Desprovidos então de sua marinha, os Ming conceberam um plano que julgavam genial: formaram um grupo de lutadores de Shaolin para perseguir e enfrentar os wako quando estes estivessem em terra firme. Foram muitos os combates heróicos, até que... os monges foram todos mortos! Quem acabou resolvendo o problema foram os portugueses: em troca da concessão de Macau, eles aceitaram formar uma flotilha para perseguir os piratas e destruí-los, o que fizeram de modo eficaz. Esta história mostra o quanto a dinastia, por mais militarizada que fosse, estava fragilizada em suas bases, por manter-se desatualizada dos acontecimentos do restante do mundo.
E o que já era ruim ainda podia piorar; dentro desta mentalidade canhestra, os Ming começaram a conceber bobagens, tais como achar que pelos simples fato de canhões serem armas eficientes, eles poderiam pintar janelas para falsos canhões nas muralhas ou torres, e isso seria suficiente para afastar os inimigos! Não é preciso dizer que o fim dos Ming, em 1644, foi mais uma grande trapalhada histórica, misturada com um erro estratégico terrível, do que propriamente uma incapacidade de realizar guerras de modo efetivo. Envolvidos por uma rebelião interna, os Ming resolveram pedir ajuda aos jurchen, uma tribo mongólica que servia de mercenária na fronteira, para que combatessem os rebeldes. Ora, os jurchen simplesmente aproveitaram a chance, entraram no país como convidados, deixaram que as tropas imperiais de digladiassem com os rebeldes e por fim, quando ambos estavam cansados e destruídos, atacaram-nos e tomaram o poder para si, fundando a última dinastia imperial chinesa, os Manchu, que durou até 1911. Esta era a prova definitiva de que os Ming haviam abandonado, por completo, um estudo sério das estratégias.
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Voltemos então a Liuji e suas Lições da Guerra. Para começar, Liu era um vira casaca, que havia servido aos mongóis e depois, passou-se para o lado do primeiro soberano Ming. Tinha fama de ser honesto, dedicado e leal (o que, na biografia de alguém que muda de lado, é algo interessante a ser explicado). Apesar de ser um estrategista, tal como Sunbin e Wuzi, acabou sendo enganado, passou por uma intriga e quebrou a cara. Liuji teve a sorte de morrer de desgosto, sem perder qualquer pedaço do corpo.
O livro de Liu é um exemplo perfeito e acabado do que seria a mentalidade reacionária e saudosista da dinastia Ming. Suas Lições da Guerra trata-se de uma coletânea de histórias de batalhas ou artimanhas estratégicas que serviriam de exemplo para um bom general aprender a comandar seus exércitos e ganhar guerras. Até a estrutura do livro se parece com as Crônicas dos Estados Combatentes (Zhanguoce), de que falamos anteriormente, e que trata apenas destas histórias de cunho estratégico e guerreiro. No entanto, o livro de Liuji recolhe episódios da história chinesa acontecidos até a época Tang, e nisso ele não tem originalidade alguma. Podemos perceber que sua tentativa consistiria, na verdade, em demonstrar que o passado contém os exemplos necessários para a resolução dos problemas atuais, como se baseados numa sabedoria estratégica perene e imutável. A partir da apresentação de fragmentos dos livros de estratégia mais antigos – principalmente a Lei da Guerra, de Sunzi – ele nos conta uma história que ilustra como aplicar determinado estratagema em certa circunstância. É um livro fácil e rápido de ler, mas nada inventivo. Todavia, devemos ressaltar que, para a mentalidade da época, o texto se apresentava como absolutamente pertinente e mesmo, necessário. Embora não tenha tido grande alcance, permitiu que Liuji fosse incluído entre os estrategistas clássicos da China, tendo sua obra preservada.
Bem mais popular que o livro de Liuji, porém, foi o livro das Trinta e seis estratégias. Apesar de ser considerado bem mais antigo, este sucinto texto foi divulgado, na verdade, na época Ming, principalmente depois da iniciativa da biblioteca imperial. E no que ele consiste? Numa simples apresentação de 36 frases, cada qual contendo um significado estratégico a ser desvendado.
A bem da verdade, ele nem chega a ser um livro, sendo mais um panfleto ou uma lista de frases a serem decoradas, mas seu impacto no imaginário e na literatura chinesa foram incomensuráveis. Talvez por serem de fácil apreensão (embora o entendimento de seus sentidos seja objeto de um estudo aprofundado), ou pelo próprio texto ser extremamente sintético, as Trinta e seis estratégias alcançaram uma difusão só comparável a de Sunzi – ou ainda maior, se pensarmos que elas caíram no gosto popular, e muitas de suas frases viraram provérbios bastante citados.
O livro começa com um parágrafo obscuro: “seis por seis dá trinta e seis. Calcular oculta a estratégia. A estratégia é um cálculo bem feito. Aprenda a calcular e saberá que estratégia utilizar. Elas são objetivas e diretas, e não teóricas ou subjetivas”. É possível que o número seis refira-se aos hexagramas do Tratado das Mutações (Yijiing), provavelmente o mais antigo dos livros chineses, e que trata da ciência e dos oráculos mais antigos desta civilização. O hexagrama era um conjunto de seis linhas positivas (yang) ou negativas (yin) que davam sentido a uma previsão. O misterioso e anônimo autor das Trinta e seis estratégias (alguns atribuem sua autoria a um antigo general Song, chamado Tan Daoji, mas nada disso é confirmável) possivelmente quis fazer um jogo como número seis e a possibilidade de calcular o desfecho de uma situação, apresentando então uma estratégia mais apropriada para o evento em questão. Aproveitando o ensejo, o livro ainda está organizado em seis grupos de seis frases, que sistematizam o seu aprendizado e memorização.
Curiosamente, a estratégia mais famosa de todas é a trinta e seis, que diz: “a melhor estratégia é fugir”. Ela se tornou numa espécie de equivalente popular do nosso “quando um não quer, dois não brigam”. Maozedong, o grande líder chinês, também fez uso dela quando ainda era guerrilheiro, na famosa Longa Marcha, ao fugir das tropas republicanas de Chiang Kaishek. Evitar um combate quando não se pode vencer é sabedoria, e não covardia.
No entanto, as outras estratégias são mais enigmáticas, se não forem devidamente explicadas: a vinte sete, por exemplo, não é tão difícil: “finja-se de louco mas fique esperto” é compreendida por meio de uma piada famosa, que tem origem na tradição popular chinesa. Um homem aparentemente louco servia de piada num bar, em que o mandavam escolher entre uma moeda de cobre e outra de prata; e ele invariavelmente pegava a de cobre, de menor valor. Um cavalheiro se compadeceu do homem e, lhe puxando num canto, disse: “escute, estes homens te avacalham todo o dia; porque você não pega a de prata, que vale muito mais?”; ao que o suposto louco respondeu: “é, mas no dia que eu pegar a de prata, a brincadeira acaba”. A primeira estratégia, em compensação, é indecifrável: “enganar o céu para atravessar o oceano” significa, na verdade, usar de recursos que desviem a atenção do público para cumprir um outro plano maior. A segunda, “sitiar Wei para salvar Zhao” também só pode ser entendida se possuirmos algum conhecimento sobre história chinesa. Trata-se de um acontecimento da época dos Estados combatentes, quando Sunbin ajudou a salvar o reino de Zhao através de um estratagema simples: como Wei atacava Zhao, este pediu ajuda ao reino de Qi, cujo estrategista principal era Sunbin, que enviou suas forças para atacar a capital de Wei, e não para dar-lhes combate direto em Zhao. Quando os generais de Wei souberam que um exército se dirigia para sua terra, levantaram o cerco de Zhao e se foram. Sunbin conseguiu, assim, libertar Zhao. Ele aproveitou ainda a oportunidade e fez uma emboscada, no meio do caminho, para as tropas de Wei, que estavam fatigadas da marcha forçada para sua terra, e foram totalmente humilhadas. Assim, sem nunca ter sitiado de fato a capital de Wei, Sunbin conseguiu libertar e conquistar o apoio de Zhao, além de impor respeito junto a Wei.
Vemos, por estes breves exemplos, que as Trinta e seis estratégias são, na verdade, um conjunto rico de pensamentos da sabedoria chinesa, cujo valor aplica-se não somente na guerra mas mesmo, na vida cotidiana. Seu sucesso deve-se a esta possibilidade única de dialogar com várias camadas da sociedade, apresentando-se como um texto fácil de guardar, mas que exige uma proveitosa discussão para ser compreendido em toda sua extensão.
A vasta literatura que os Ming recolheram e deixaram a sua disposição não fez, contudo, com que eles se tornassem mais sábios. Ao contrário, eles parecem ter esquecido o que já dizia o início das Trinta e seis estratégias: quem sabe calcular, sabe que estratégia utilizar; elas são objetivas, e não teóricas. Mas em seus delírios saudosistas, os Ming ficaram a repetir a cantilena do passado ideal, e com isso, perderam o contato com a realidade. Não souberam planejar nem cuidar dos riscos, e sua intransigência contra uma renovação cultural fez com que um povo muito mais atrasado tecnologicamente – os manchus - acabassem tomando o poder. As conseqüências disso seriam trágicas para o futuro da China dali por diante...

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