9º capítulo – O Século da derrota

Em 1897, um decreto real manchu promovia um concurso de arco e flecha, com prêmios em dinheiro para os melhores atiradores. Havia uma razão para isso: dois anos antes, uma inspeção no exército havia demonstrado que muitos soldados chineses não sabiam usar corretamente o arco. A questão é que, alguns meses antes, as forças armadas chinesas foram absolutamente arrasadas pelos japoneses na guerra de 1894-1895, tendo a marinha chinesa sido afundada toda num dia só! E o que o imperador entendeu disso? Que os chineses foram derrotados porque não sabiam atirar flechas!

O impressionante relato deste episódio absurdo está na crônica de Marques Pereira, jornalista de Macau que, em 1899, escrevia no semanário Tassi Yangkuo um relato pormenorizado do exército chinês. A situação era catastrófica: enquanto as forças européias dispunham de navios metálicos, canhões modernos de projétil, fuzis de repetição e metralhadoras, os manchus insistiam no treino com espadas, escudos e arqueria. A maior parte dos soldados eram camponeses que não tinham nenhum treino, recebiam um soldo ridículo e nada sabiam sobre guerra moderna. No próprio conflito com o Japão, a esquadra chinesa dividia-se em duas: uma parte encomendada nos estaleiros europeus, que os chineses mal sabiam utilizar, e outra feita com os tradicionais juncos, com canhões carregados pela boca (como nas guerras napoleônicas). Em algumas horas eles foram absolutamente esmagados pela superioridade técnica, estratégica e organizacional dos japoneses. Quanto às tropas em terra, estas foram comunicadas que simplesmente não receberiam seus soldos, e foram dispensados no caminho da batalha! Enquanto o governo negociava um tratado com o Japão, estes soldados sem rumo voltaram para seus lares pilhando, no caminho, o que pudessem encontrar de valor. Como foi que um dos maiores impérios do mundo havia chegado a esta situação de descalabro total? O que aconteceu com o poder militar tremendo que a China possuía antes? O século 19 é o período das desgraças chinesas, e constituiu, provavelmente, os cem piores anos de sua história. Para entendermos o que aconteceu, precisamos voltar, então, ao período em que os jurchen tomam o poder no país e inauguram a sua dinastia, a Qing, que lançaria a civilização chinesa em um dos períodos mais tenebrosos de sua história.

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Quando os jurchen (ou manchus) tomam o poder em 1644, a China era, ainda, um dos países mais avançados do mundo. No entanto, a política Ming de se fechar ao mundo exterior havia causado um impacto tremendo no desenvolvimento tecnológico e comercial do país. Foi esta insistência deliberada no conservadorismo que impediu o país de continuar evoluindo, e que permitiu aos manchus tomarem o poder por meios antigos – a velha carga de cavalaria, o uso massivo de flechas, o combate corpo a corpo. No século 17 esta tática poderia ainda valer alguma coisa, embora na Europa ela já tivesse sido abandonada. Contudo, em combates em larga escala, o número ainda fazia uma diferença substancial. Quanto ao uso de canhões, o seu potencial dependia da situação em que eram empregados – no entanto, não se tinha dúvidas de que a artilharia era um dos futuros da guerra. Em ocasiões de bombardeio ou cerco, ou mesmo na guerra naval, suas qualidades estavam definitivamente comprovadas. Nas guerras táticas, porém, o uso de estratégias diretas anda permitia que os guerreiros antigos tivessem alguma chance.

Mas os machus, ao fundarem a dinastia Qing, perceberam que para melhor controlar o povo chinês seria interessante manter – e aprimorar, na verdade, - esta política pública de ignorância científica e ideológica. Deliberadamente, pois, eles restringiram o uso das armas de fogo, o estudo das tecnologias navais e de guerra, da estratégia, promoveram uma espécie de confucionismo caquético e moralista que se negava a reconhecer o valor da modernidade, e acentuaram o caráter hermético e fechado do país em relação ao estrangeiro. O objetivo dos Qing era claro: quanto menos os chineses soubessem sobre armas e novas tecnologias, melhor seriam submetidos; quanto menos idéias novas eles tivessem acesso, menos eles criticariam o regime. Por outro lado, valorizando as doutrinas tradicionais do confucionismo, do daoísmo e do budismo, os chineses manteriam sua crença de que todas as respostas necessárias se encontram no passado, e que a nova dinastia se interessava em respeitá-lo e mantê-lo vivo. Um dos resultados diretos disso foi a confecção de uma nova coleção de escritos antigos, chamada de Quatro grandes ramos da literatura (Siku Quanshu), que se propunha, simplesmente, a formar uma grande enciclopédia com todos os textos antigos chineses (incluindo os Ming), que salvaguardariam o patrimônio intelectual chinês para a eternidade.

De início, a visão dos manchus não parecia equivocada. Eles conseguiram, por meio de suas técnicas tradicionais de guerra, submeter o Tibet e impor protetorados nos Vietnã e na Coréia. Com um uso restrito de armas de fogo e canhões, constituíam ainda uma potência respeitável no meio asiático, e sua cavalaria era temida como a dos seus ancestrais liderados por Gengis Khan. Todavia, esta confiança arrogante nos antigos métodos criou uma miopia impossível de ser curada sem um trauma violento. No final do século 18, a Inglaterra enviou um embaixador, lorde Macartney, para negociar privilégios comerciais junto ao país, assim como o que os portugueses conseguiram em Macau. O imperador Qianlong os dispensou sem maiores considerações, e os ingleses, rancorosos por esta indignidade, esperaram por uma revanche. No livro O império imóvel, de Alain Peyrefite, temos uma descrição das impressões que os europeus tiveram da China – uma país que, ao seu ver, constituía uma espécie de museu vivo. Os ingleses ficaram chocados com canhões de madeira (e as velhas janelas para artilharia pintadas nas muralhas, feitas para assustar), balas de barro (feitas por mandarins que roubavam o metal das fundições e o substituíam, nos arsenais, por projéteis de argila que “teriam a mesma eficácia”), soldados vestidos de pele com escudos arcaicos de couro, uma meia dúzia de fuzis de mecha do século 16... O próprio Macartney chegou à conclusão de que os chineses se interessariam em comprar armas, mas sua visita foi infrutífera. A entrada na China teria de se feita por outro meio.

Enquanto isso, os próprios manchus bolavam estratégias mirabolantes para conter a ameaça inglesa. Um dos conselheiros do imperador, assustado com os gigantescos navios ingleses, sugeriu que se convocassem catadores de pérolas para cortarem os lemes dos navios, caso os europeus causassem problemas! Em outra, quando a frota inglesa partiu, os tripulantes dos juncos foram instruídos a sacudirem facões e espadas no ar para assustá-los, quando passavam. Para os ingleses, isso só confirmava que a China estava pronta a ser invadida e conquistada.

Idéias como essa não eram novas, mas nunca se mostraram possíveis até então. Os espanhóis, no século 16, já haviam imaginado como poderiam dominar a China, tal como fizeram na América, mas perceberam a total impossibilidade de concretizar a empreitada, dado o poder e a tecnologia dos chineses da época. No século 17, o pirata chinês Coxinga, fiel aos destronados Ming, conseguiu vencer os holandeses numa batalha naval, assegurando a liberdade da ilha de Taiwan. As notícias que os missionários cristãos enviavam do país davam conta da extensão de seu poder e organização, e afastavam anseios maiores. No entanto, no final do século 18, começara a ficar claro que os chineses estavam ficando para trás, a embaixada inglesa confirmou as impressões. Se tratava apenas, portanto, de achar um motivo.

Este veio alguns anos depois, em 1839, quando o principal produto de exportação inglesa para a China, o ópio, foi proibido pelo governo manchu. O país estava sendo destruído pela droga, cujo consumo era liberado; milhares de chineses tiveram sua saúde destruída pelo vício, e a violência aumentara por conta dos usuários que não queriam (ou podiam) trabalhar e apelavam para o roubo para sustentarem o hábito. Pela primeira vez na história da humanidade, um governo percebeu o que seria a “questão das drogas”, e passou a perseguir os traficantes de ópio, coibindo seu uso. Leis duras foram impostas contra o uso da droga, e o governador de Guandong (Cantão, principal porta de entrada da droga) conseguiu admiravelmente bem reprimi-la, queimando toneladas da substância e expulsando os viciados das ruas.

No entanto, a Inglaterra não pensava do mesmo jeito, e reclamando seus direitos comerciais sobre o ópio, enviou para lá sua armada de vapor e metal. A China novamente não conseguiu entender o que estava acontecendo: como aquele país tão pequeno e distante, desconhecedor das tradições milenares, poderia vir e tão facilmente vencer as terríveis forças manchus? O baque foi enorme e traumatizante. Os Qing foram obrigados a assinar seu primeiro tratado humilhante, cedendo Cantão, Hong Kong e outras inúmeras concessões comerciais aos britânicos. Aparentemente, eles não assimilaram bem a questão, tentando novamente outra guerra com os ingleses (a segunda guerra do ópio) em que foram novamente vencidos e submetidos em condições vergonhosas.

Diante disso, os Qing se perceberam diante de uma enrascada: como fazer a dinastia sobreviver sem perder o controle da situação? Fazer evoluir o país, com tecnologias estrangeiras, poderia permitir que os chineses tivessem acesso a certos conhecimentos que poderiam por em perigo a estabilidade do governo – que em essência, apesar de achinesado, continuava sendo uma dinastia estrangeira.

A decisão foi a pior de todas: negociar com os estrangeiros para manter a repressão interna. Com isso, o século 19 foi uma desgraça para a sociedade chinesa. Todas as guerras em que o país se envolveu foram perdidas. A revolta Taiping, feita por um profeta que se achava irmão de Jesus e que queria derrubar os Qing, foi reprimida com muito custo, e com a intervenção decidida dos europeus, cujo auxílio humilhante foi pedido pelas autoridades manchus. Nas décadas de 60 e 70, outras pequenas guerras foram sendo feitas, que culminaram com mais tratados desvantajosos e mesmo, como saque do palácio imperial de verão por forças anglo-francesas. Ser militar tornou-se uma profissão vergonhosa e indigna, e as tropas começaram a ser compostas por vagabundos, bêbados, viciados, mendigos convocados a força ou de pilantras em busca de uma oportunidade. A elite da tropa, formada pelos manchus, mantinha-se na sua quimera guerreira de cavalaria das estepes.

A intelectualidade chinesa tentou alguma reação, mais sem sucesso. As tentativas de modernizar o exército e a marinha eram esporádicas, e nunca completadas, fosse por causa da corrupção ou do receio Qing de permitir o acesso chinês aos novos conhecimentos. Assim, em 1895, o que havia de moderno nas forças armadas chinesas foi destroçado rapidamente pelos já ocidentalizados japoneses, reforçando o sentimento de saudosismo para com o passado. Em 1900, uma revolta ainda mais inacreditável ocorreu na China: o levante dos boxers. Inspirados por seitas místicas que afirmavam que as artes marciais chinesas eram invencíveis, e que poderiam fechar o corpo dos lutadores até mesmo contra as balas, os “boxers”, como foram apelidados pelos europeus, eram praticantes de kungfu que acreditavam piamente na força das tradições chinesas do passado, e por isso atacaram os estrangeiros em várias partes do país, por supor que estes estavam destruindo sua cultura e sociedade.

Embora assustadores, os boxers foram totalmente derrotados por uma força combinada de europeus e japoneses; numa demonstração bárbara e acintosa de poder, os prisioneiros boxers capturados foram decapitados, e suas cabeças expostas em praça pública. Quanto ao império Qing, novamente pagou a conta das dívidas de guerra, espoliando o já combalido povo chinês. Nesta época, a regente do país era Cixi, uma mulher que só se interessava em como manter-se no poder. Sua lendária habilidade em negociar acordos era comparável apenas com sua infinita incompetência para enxergar o presente. Para se ter uma idéia, em certa ocasião foram coletados impostos para a construção de uma nova marinha para a China, mas a imperatriz recolheu este dinheiro e afirmou que “mostraria ao mundo o que era uma verdadeira marinha”. Mandou construir um fantástico palácio de mármore, em forma de navio, que em sua visão estreita da realidade imporia um “temor moral” nos estrangeiros quanto ao poder dos Qing em realizar obras admiráveis...

Por causa disso, os chineses criaram uma antipatia reincidente pelo seu próprio passado, julgando que ele era responsável pelo seu atraso tecnológico e humano. Grande parte dos críticos reformadores da época insistia na necessidade de modernizar-se a moda européia, adotando um modelo parecido com do Japão. Não haveria solução para o país se a coisa continuasse do jeito que estava. De crise em crise, a China foi cedendo ao momento derradeiro de seu período imperial, e em 1911, os chineses, liderados por Sun Yatsen, derrubaram a última dinastia e proclamaram a república. Terminava, finalmente, o maior e mais antigo império da Terra.

E o pensamento estratégico, o que aconteceu neste período? Imobilizados por um governo cego, os pensadores chineses nada podiam fazer; e quando decidiram atuar, buscavam as respostas em novos rumos, tentando afastar-se de seu próprio passado. Sunzi e os outros autores empoeiraram nas prateleiras das bibliotecas e livrarias. O pensamento estratégico chinês só seria recuperado de modo magistral por um temível combatente comunista que, no início da república, já dava o ar de sua graça. Era Maozedong, que veremos a seguir.

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