Anexo: Qual a relação dos estrategistas com outras escolas de pensamento chinesas?

No decorrer deste livro, discutimos algumas vezes a relação dos estrategistas com outras escolas filosóficas da China Antiga. De fato, somente num tempo recente os estrategistas começaram a ser considerados como uma espécie de “escola”, ou linhagem de estudiosos do tema, dentro da história do pensamento chinês.

Contudo, é difícil traçar uma relação direta entre eles e os outros pensadores chineses. De fato, talvez seja melhor entender o processo de diálogo dos estrategistas com as outras escolas filosóficas como uma troca constante, permeada de aquisições e empréstimos sem que, contudo, se deixe explícito a fonte.

Vamos recordar os pontos principais de cada escola:

Os confucionistas, ou letrados (Rujia) eram defensores da educação, propondo que a continuidade de uma sociedade dependia da manutenção de sua cultura. Propunham que o melhor meio de realização do individuo seria a busca de uma sabedoria de vida, calcada no estudo, que o permitisse estabelecer um processo de harmonia com a natureza e com os outros seres humanos.

Quanto aos caminhantes, ou daoístas, seu discurso centrava-se do desprendimento do ser humano em relação à cultura e as coisas materiais, desejando um retorno a sua natureza original, ou espontaneidade. Eram, basicamente, o oposto complementar dos confucionistas.

Os legistas propunham a construção de uma lei forte, centralizadora, que condicionasse o ser humano para a vida em sociedade, alcançando assim uma harmonia raciocinada e científica.

Quanto aos moístas, estes acreditavam num amor universal e comunitário, baseado na abolição da cultura de elite e na vida simples e austera das comunidades campesinas. Seu ideal era, possivelmente, o da antiga tribo ou vila, em que o poder se via ausente e a vida era administrada em comum.

Existia ainda a escola cosmológica, que estudava a natureza, os fenômenos físicos, e analisava as leis de funcionamento da mesma.

Este breve olhar sobre as principais escolas da antiguidade nos permite fazer algumas conexões com o pensamento estrategista. Certos elementos parecem ser constantes nos textos, tais como:

- Punição e Recompensa: punir os erros, e premiar os bons serviços: esta metodologia de administração de problemas dentro da tropa era intensamente defendida pelos legistas, como forma ideal e justa, para estimular a sociedade como um todo a comportar-se corretamente. Existindo padrões claros, as pessoas só errariam se assim o desejassem, e arcariam com as conseqüências de seus atos. Havendo, pois, consciência do que certo e errado, como alguém poderia cometer crimes?

- O uso do terreno e do clima: esta foi, provavelmente, a maior contribuição dos cosmológicos. A observação e o domínio do tempo, dos terrenos e das condições climáticas é um dos elementos chave nos discursos dos principais tratados estratégicos.

- Métodos defensivos: por mais contraditório que pareça, os moístas foram grandes contribuidores nas estratégias defensivas, pois acreditavam na obrigação moral de defender os mais fracos e em desvantagem. Parte do livro de Mozi, que contém a doutrina desta escola, dedicava 3 capítulos as táticas de guerra defensivas.

- Preparação e estudo: é o confucionismo que institui, dentro da mentalidade chinesa, a idéia de que é impossível aprender algo sem estudar. Tanto o é que, em chinês, “estudar” (xue) é praticamente sinônimo de aprender. Não existe uma frase como em português: “aprendi sem estudar, ou estudei e não aprendi nada”. Alguém que estuda, mas não aprende, na verdade “não compreendeu” corretamente o que estudava. Afirmar que se estudou algo implica em assumir que se sabe do que se está falando. Por isso, para os chineses a preparação é fundamental. Um velho ditado chinês diz algo mais ou menos assim: “para se cortar rapidamente uma árvore, gaste dois terços do tempo afiando o machado”. Havendo preparação, as coisas se desenrolam naturalmente. O estudo das estratégias, pois, é um estudo como qualquer outro, que deve ser apreendido com afinco e profundidade. Esta é uma regar geral da mentalidade chinesa até os dias de hoje, no que toca qualquer conhecimento, e herança direta de Confúcio.

A contribuição dos daoístas merece um destaque especial. Os daoístas se propuseram, na verdade, a enveredar pelo campo da estratégia, apresentando, inclusive, seus próprios tratados sobre o assunto. Thomas Cleary, um dos principais tradutores de textos clássicos chineses para o inglês, defende taxativamente que os estrategistas eram influenciados, principalmente, pelo daoístas. Contudo, suas explicações não conseguem conciliar os objetivos tão diversos dos daoístas com o dos estrategistas – senão, no tocante aos métodos para a busca de eficácia. Ralph Sawyer, o principal tradutor das obras estratégicas chinesas, comenta inclusive sobre um livro intitulado O Dao da guerra, de Wang Chen (século 9 d.C.), que se trata do principal trabalho daoísta sobre o tema, direcionando-se a questão da guerra.

Este é o ponto principal de atrito de uma possível conexão entre daoístas e estrategistas. Quando lemos textos que supostamente tratam de estratégia entre os daoístas, como o Mestre Huainan (da época Han), ou O Mestre do Vale Fantasma (o suposto mestre de Sunbin, mas cujo texto só surge depois da época Han), vemos uma ampla gama de questões relativas à administração política e humana que mais facilmente dialogam com o confucionismo do que com qualquer outra escola. Ora, autores como Cleary vêem aí que as preocupações humanísticas presentes nos textos daoístas são as mesmas relativas a administração dos recursos humanos entre os estrategistas, mas isso é uma leitura errônea: de fato, quando lemos os textos estratégicos, podemos perceber que eles transitam facilmente entre os discursos confucionista, daoísta e legista sem grandes preocupações, senão em função de sua coerência interna.

A pergunta, pois, é se os estrategistas concebem estas coisas sozinhos ou, se ele tomam de empréstimo das outras escolas tornando-se, assim, meros repetidores sem originalidade. Devemos tomar cuidado com isso, volto a insistir. É bem provável que os estrategistas pudessem pregar emprestadas idéias com outras escolas, mas a sua experiência em combate mostrava, diretamente, a eficácia – ou não – delas. Textos como o de Wei Liaozi mostraram que a imposição de uma lei draconiana e interminável são desaconselháveis e mesmo impossíveis de cumprir, fatalmente cansando as tropas e o povo; por outro lado, o idealismo cavalheiresco e romântico do Sima Fa se foram há tempos, embora ocasionalmente se pretenda o retorno de códigos de conduta na guerra (como no caso dos duelos aéreos da primeira guerra mundial). Por outro lado, textos como o de Sunzi mostram que na eminência de uma guerra, toda a cultura, por mais perfeita que seja, encontra-se em perigo – e neste caso, a preparação é um elemento definitivo para enfrentar qualquer crise. A questão da flexibilidade e da adaptação, tão cara aos daoístas, aparece igualmente nos textos estratégicos, mas como um recurso, e não uma meta constante. Mesmo quando lemos o texto de Liuji, observamos uma coleção de coisas que deram certo e que poderiam ser usadas – o que quer dizer que milhares de outras coisas deram absolutamente errado, e para cada estrategista vitorioso existe outro que é perdedor.

Assim sendo, buscar detalhar as conexões possíveis do pensamento estratégico com o de outras escolas é um trabalho exaustivo, e que talvez não seja absolutamente necessário. Devemos ter em mente que os estrategistas buscaram propor metodologias próprias, voltadas para questões específicas, nos quais os elementos utilizados – fossem eles emprestados ou não – serviam para atender uma função, ou cumprir um papel. Mais importante do que saber qual escola tem preeminência ou não sobre estes pensadores estratégicos é perceber se, de fato, suas teorias funcionam. Ou, parafraseando Deng Xiaoping (1977-1990), o líder chinês que substituiu Maozedong:

Não importa a cor do gato: importa é se ele caça ratos

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