Conclusão – A Arte da Guerra Chinesa nos dias de Hoje


Em 1979 os chineses resolveram, por uma série de questões políticas e ideológicas, atacar os seus antigos aliados vietnamitas. O exército chinês saiu cantando vitória, mas na verdade foi expulso com o rabo entre as pernas pelos experientes combatentes do Vietnã. Um líder político do partido comunista chinês da época chegou a afirmar que as forças armadas do país “pareciam um exército de carteiros e motoristas”, sem nenhuma aptidão militar notável. Isso mostrou que, após a era Mao, encerrada em 1976, a China havia descuidado do seu lado militar, e era necessário empreender uma modernização geral das forças armadas.
A época dos conflitos verdadeiramente revolucionários havia passado, e os chineses não podiam mais improvisar ou confiar somente no “ímpeto popular”. Desde então, uma atenção especial tem sido dada ao preparo dos soldados e ao reequipamento das forças, priorizando a aquisição de novas tecnologias. Contudo, a questão estratégica não foi deixada de lado, e em 1992 foi aberta uma academia de estudos clássicos de Sunzi em Shandong. O objetivo deste centro de estudos é promover simpósios e publicações na área da estratégia, tanto militar quanto comercial. Antes disso, as obras estratégicas circularam principalmente dentro das academias militares, sendo vastamente impressas e difundidas pela editora do exército chinês. Foi o exército, inclusive, um dos primeiros promotores dos novos textos descobertos em 1972. Mas a questão é: o que os chineses, no geral, pensam sobre esta filosofia estratégica?
Temos que ter em mente que na China, a idéia de associar a guerra com a competição comercial, como muito se divulga no Ocidente, é um tanto intimidadora e agressiva demais. Os empresários chineses gostam de ler e conhecer sobre estratégia, e quase todo o cidadão comum deste país conhece alguma das trinta e seis estratégias. Contudo, a competição comercial envolve certas regras que não permitem o uso de expedientes amorais como o saque, o roubo ou a violência, como ocorre na guerra (ou, ao menos, não deveriam). A preocupação central não é de usar certas estratégias no mundo dos negócios para superar barreiras; mas sim, de transformar uma área de conflito humano em um palco de violência desproporcionada, em que as regras do respeito já não valem mais. Mesmo Maozedong, que se tornou um perito na leitura de Sunzi, não transparece no restante de seus escritos – filosóficos, morais, históricos, sociológicos, educativos, etc. – qualquer idéia de que os estratégicos deveriam ser aplicados a outros campos da vida, sendo circunscritos ao âmbito militar.
Como bem explicitou o sinólogo e filósofo francês François Jullien no seu Tratado da Eficácia (1998), a análise da obra de Sunzi no mundo atual chinês visa a obtenção do sucesso, com o uso da estratégia, justamente para evitar o conflito desnecessário, para encontrar as melhores formas e maneiras de administrar um problema.
Este é, provavelmente, o perigo da mercantilização da violência que muitas das traduções comerciais ocidentais de Sunzi (e de outras obras) têm propagandeado. Sabe-se que a Lei da Guerra, principalmente, possui um caráter nitidamente militar, sendo divulgada entre as principais escolas de oficiais nos Estados Unidos e Europa. Na guerra do Golfo, em 1991, foi fartamente noticiado que oficiais da marinha e dos fuzileiros americanos estudavam o livro de Sunzi. Todavia, contam-se aos milhares os pretensos intelectuais, administradores e motivadores profissionais que defendem exaustivamente que o mundo é um campo de batalha sem valores morais, em que tudo é lícito e toda violência, se justificada, é sancionada. Este é o tipo de abuso, em relação às obras estratégicas chinesas, que mais danos causam ao seu estudo consciente e profundo.
Como vimos, vários estrategistas chineses propunham interpretações do caminho (Dao) que se atrelavam ou fundamentavam a execução das estratégias. É a ausência de um discurso político que deixou Sunzi mais aberto a manipulação – mas nem por isso, menos perigoso. Aceitar pura e simplesmente que as estratégias chinesas servem para alcançar a eficácia em qualquer plano, independente das circunstâncias, é esquecer que a maior parte destes livros foram escritos quando a guerra já começou, e a partir disso, os valores e leis de uma sociedade já não contam mais como regras válidas.
A leitura da própria Lei da Guerra foi banalizada, e hoje existem inúmeras traduções do livro (em português se contam aos montes) sendo cada uma pior do que a outra, com raras exceções. As estratégias chinesas são um excelente meio, sim, de enfrentar as adversidades da vida, se empregadas com ponderação, cuidado, e uma observação criteriosa da realidade circundante. No entanto, se empregadas de maneira vil ou superficial, tornam-se logo uma fonte de conflito, ao invés de administrá-lo.
Gostaria de encerrar este livro com uma historieta de estratégia, presente no Zhanguoce. Ao meu ver, ela ilustra perfeitamente bem o que consistira o cerne da filosofia estratégica que, durante séculos, foi o tema central destes pensadores chineses:
O Rei Wei, de Qi, vivia inteiramente cercado de cortesãos que lhe afagavam a vaidade e seguiam seus caprichos. Certo dia, Zouxi disse ao rei:
- Majestade, não sou exatamente de má aparência. (Era homem de “oito pés” de altura). Mas, no norte da cidade, há um Sr. Shu, famoso por seu belo aspecto. Um dia, fiquei em frente ao espelho e perguntei a minha mulher: “Quem achas mais bonito, eu, ou o Sr. Shu?” “Tu, naturalmente”, respondeu minha mulher. Não ousei basear-me em sua palavra e fiz a mesma pergunta à minha concubina. “Como pode o Sr. Shu comparar-se contigo?”, foi sua resposta. Na manhã seguinte, chegou um visitante e, após uns instantes, fiz-lhe a mesma pergunta; ele respondeu: “O Sr. Shu não pode comparar-se contigo”. No dia imediato, o próprio Sr. Shu foi visitar-me. Examinei-o cuidadosamente e achei que ele era muito mais bonito do que eu. Olhei-me bem ao espelho e fiquei inteiramente convencido de que eu não me podia comparar a ele. Assim, deitei-me em minha cama e pensei: minha mulher me louva, porque é parcial em relação a mim; minha concubina me louva, porque tem medo de mim; meu amigo me louva, porque tem algo a pedir-me. Ora, Qi é um reino de mil li quadrados, com cento e vinte cidades. todas as damas e todos os servidores do palácio são parciais em relação a Vossa Majestade. Todos os cortesãos têm medo de seu poder. E todo o povo tem alguma coisa a pedir-lhe. Assim, parece-me difícil que Vossa Majestade consiga ouvir a verdade.
- Dizes bem - respondeu o rei. Então, baixou um decreto: ‘Todos os ministros, funcionários e pessoas comuns que puderem mostrar meus enganos receberão a mais alta classe de recompensas. Os que escreverem cartas para aconselhar-me receberão a recompensa de segunda classe. E os que puderem criticar-me e a meu governo na praça do mercado, de modo que isso me chegue aos ouvidos, receberão a recompensa de terceira classe”.
Baixado o decreto, viu-se o rei inundado por uma torrente de conselhos e a corte ficou repleta de gente. Isso continuou por vários meses. Um ano depois, não havia erro do governo que não tivesse sido considerado e apontado por alguém. Os países vizinhos, Yen, Zhao, Han e Wei, souberam do que o rei fizera e acabaram reconhecendo o Estado de Qi como seu dirigente.
Isso é o que se chama ganhar a guerra sem sair de casa.
(Lin Yutang, A sabedoria da índia e China. Rio de Janeiro: Pongetti, 1957)

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