Fragmentos do pensamento estratégico de Maozedong

Os objetivos da guerra

A guerra não tem outro fim senão "conservar forças e aniquilar as do inimigo" [1](aniquilar as forças do inimigo desarmá-las, "privá-las de toda capacidade de resistência", e não aniquilá-las apenas fisicamente). Na antiguidade, usavam-se, para a guerra, lanças e escudos: a lança servia para atacar e aniquilar o inimigo; o escudo, para defender e conservar a vida. Até nossos dias, é graças ao aperfeiçoamento desses dois tipos de armas que resultam todas as outras. Os bombardeiros, as metralhadoras, a artilharia de longo alcance, os gases tóxicos são aperfeiçoamentos da lança, e os abrigos, capacetes de aço, fortificações, máscaras contra gases, aperfeiçoamentos do escudo. Os carros de assalto são uma arma nova, onde se acham combinados a lança e escudo. O ataque é o meio principal para destruir ás forças do inimigo, mas, não se saberá passar sem a defesa. O ataque visa aniquilar diretamente as forças inimigas e, ao mesmo tempo, conservar as próprias forças, porque, se não aniquilamos o inimigo, ele o fará. A defesa serve diretamente à conservação das forças, mas é, ao mesmo tempo, um meio auxiliar de ataque ou um meio de preparar a passagem ao ataque. A retirada se relaciona à defesa, é seu prolongamento, enquanto a perseguição é a continuação do ataque. É de se observar que, entre os objetivos da guerra, o aniquilamento das forças do inimigo é o fim principal, e a conservação d próprias forças o fim secundário, pois não se pode assegurar com eficácia a conservação das próprias forças, senão pelo aniquilamento em massa das forças do inimigo. Disso resulta que o ataque, tanto um meio fundamental para aniquilar as forças do inimigo, desempenha o papel principal, e a defesa, tanto um meio auxiliar para aniquilar as forças do inimigo e tanto um meio de conservar as próprias forças, desempenha papel secundário. Se bem que na prática recorramos, muitas situações, sobretudo à defesa e, em outras, sobretudo ao ataque, este não será menos o método principal, se considerarmos o desenrolar da guerra como um todo.

Os princípios militares de Maozedong

Eis nossos princípios militares:

1. Atacar primeiro as forças inimigas dispersadas e isoladas, e, em seguida, as forças inimigas concentradas e poderosas;

2. Apossar-se primeiro das cidades pequenas e médias e das vastas regiões rurais e, em seguida, das grandes cidades;

3. Fixar, como objetivo principal, o aniquilamento das forças vivas do inimigo, e não a defesa ou a ocupação de uma cidade ou território. A possibilidade de ocupar ou tomar uma cidade ou território resulta do aniquilamento das forças vivas do inimigo e, com freqüência, uma cidade ou território não podem ser ocupados ou tomados definitivamente senão depois de várias retomadas;

4. Em cada batalha, concentrar forças de superioridade absoluta (duas, três, quatro e mesmo cinco ou leis vezes as forças do inimigo), cercar completamente as forças inimigas, lutar para as destruir totalmente sem lhes dar a possibilidade de escapar da emboscada. Em casos particulares, infligir ao inimigo golpes esmagadores, ou seja, concentrar todas as forças para um ataque de frente e um ataque sobre um dos f1ancos do inimigo, ou sobre dois, aniquilar uma parte de suas tropas e colocar a outra parte em fuga, a fim de que nosso exército possa deslocar ràpidamente suas forças para esmagar outras tropas inimigas. Esforçar-se para evitar as batalhas de usura, nas quais os ganhos sejam inferiores til perdas, ou apenas sirvam para compensá-las. Dessa forma, embora no conjunto estejamos (numericamente falando) em condição de inferioridade, teremos a superioridade, absoluta em cada setor determinado, em cada batalha, e isto nos assegura a vitória no plano operacional. Com o tempo, obteremos a superioridade de conjunto e, finalmente, aniquilaremos todas as forças inimigas;

5. Nunca entrar em combate sem preparação, ou em combate cuja vitória não seja certa. Fazer o máximo de esforços para estar bem preparado para cada compromisso e para assegurar a vitória em relação a condições entre as duas partes;

6. Dar tudo, em nosso estilo, de combate - bravura, espírito de sacrifício, menosprezo pela fadiga e tenacidade nos combates contínuos (engajamentos sucessivos, realizados em curto período e sem repouso);

7. Esforçar-se para aniquilar o inimigo, recorrendo à guerra de movimento. Ao mesmo tempo, dar a devida importância à tática de ataque de posições, quanto ao objetivo de se apossar de zonas fortificadas e cidades do inimigo;

8. No que se refere ao ataque de cidades, ocupar; decisivamente, todas as zonas fortificadas de todas cidades nas quais o inimigo impôs fraca resistência. Apossar-se, no, momento propício, de todos os pontos fortificados e de todas as cidades defendidas moderadamente pelo inimigo, sempre que as circunstâncias o permitirem. Quanto aos pontos fortificados e às cidades tenazmente defendidas, esperar a ocasião prudente e/' então, ocupá-los;

9. Completar nossas forças com a ajuda de todas as armas e da grande maioria dos efetivos tomados ao inimigo. Os recursos principais em homens e materiais para nosso exército estão no front;

10. Saber aproveitar o intervalo entre duas campanhas para descansar, instruir e consolidar as tropas. Os períodos de descanso, treinamento e consolidação não devem, em geral, ser muito longos, e, tanto quanto possível não deixar ao inimigo tempo para recuperar fôlego.

Tais são os principais métodos aplicados pelo Exército Popular de Libertação, para enfrentar Chiang Kaichek. Foram forjados pelo Exército Popular de Libertação, no transcurso de longos anos de combate entre inimigos dentro e fora do país e se adéquam perfeitamente a nossas condições atuais... Nossa estratégia e nossa tática repousam na guerra popular; nenhum exército em oposição ao povo pode utilizar nossa estratégia e nossa tática.

Da iniciativa

Sem preparação, a superioridade das forças não é uma superioridade verdadeira e perdemos a iniciativa. Se compreendermos esta verdade, as tropas, inferiores em força, mas preparadas, podem freqüentemente, com um ataque inopinado, bater um inimigo em superioridade.[2]



[1] Paráfrase de Sunzi, sobre a qual Mao irá desenvolver o texto.

[2] Um tema recorrente nos textos de estratégia: a preparação é fundamental para o confronto, podendo inverter o jogo de forças.

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